MAIS UMA VEZ... - Alexandre Vicente
Mais uma vez olhava as mãos. Não acreditava na distância de agora. O cheiro era de fim de tarde, brisa e vento se alternavam, como se preferissem brincar. As luzes da rua se acendiam e as ondas iam e viam em uma dialética de calma e fúria. Os risos e rostos, cabelos e falas estavam distantes, mas eram vivos, pelo menos em seu peito. Aquele aperto era insuportável. Um nó lhe travava a garganta. O grito de liberdade não saía. Estava preso àquele amor para sempre. Porque tanta dor? Por que desse desfecho? Vida e morte andam juntas. Estamos mais perto da morte que da vida.
Agora já é noite. Ainda estou aqui. O mar. Imensidão. Como sentir tamanha imensidão? É como esse sentimento. Enorme. Sem que se possa sentir por completo. Talvez em queda livre, no ar, talvez assim se possa sentir. Cair sem aparas. Cair de dez mil metros de altura, e talvez sentir, por alguns minutos, até que o estampido do impacto encerre tudo; e você leva para não sei onde, a certeza de ter sentido a imensidão. Ter sentido todo esse amor.
Desperto e olho ao redor. A vida segue em sua normalidade. Com indiferença. Um dia atrás do outro. Uma manchete com validade de um dia. O nó não desata e começo a caminhar para casa. A direção é automática. Produto da normalidade. Entro em casa e você está lá. Na TV, no som, nos CD's. As almofadas ainda estão jogadas no chão, onde, na noite anterior a tudo, assistimos "Patch Adams". Ele a transformou em borboleta. Hoje você também é uma borboleta. Abro a geladeira... Confiro... Uma maça, leite, água, queijo.... um iogurte vencido. Isso já devia estar no lixo. Ah! É isso. Apanho uma garrafa de vinho tinto que está pela metade. Caminho para a sala e deito entre as almofadas e posso sentir tuas formas e teu cheiro impregnado nelas. Entorno um pouco de vinho no chão. Se você estivesse aqui, estaria me olhando de cara feia. Agora nada mais importa. Tudo está sem vida.
A noite avança e adormeço. Um pouco por embriaguez, um pouco por cansaço. Esses dois dias foram corridos. Não preguei o olho. Toda essa burocracia para nos enterrar. Sim. Estou enterrado ali, ao seu lado.
Desperto com o som de nada. O silêncio incomoda. Levanto e coloco Marisa. O que me importa. Ele também morre no fim. Você nunca aceitou isso. Agora o que importa? Você também não está aqui. Eu estou. Pelo menos em matéria. Volto para as almofadas. Agora consigo chorar. Baixinho. Bocejo. Engraçado como, às vezes em mim, o choro implica um bocejo. Dizia mamãe que era porque eu, na verdade, não queria chorar. Será? Como era bom ser criança. Somos poupados dessas coisas. Onde será que você estava quando eu tinha 10 anos? Você já estava por aí e eu ainda não aproveitava esse tempo ao seu lado. Agora queria só mais um minuto. Um minutinho para dizer que te amo. Um minutinho para te beijar, beber uma xícara de café, conversar sobre o tempo, sobre nós... Isso ia levar mais de um minuto. Era preciso a eternidade para eu fruir de você, tudo que me é de direito. Deus é injusto na sua justiça. Leva quem quer, sem que você possa contra argumentar. Leva os bons, leva os novos. Levou Renato, levou Cazuza, levou você. O que lhe importa? É insensível a dor. A vida é precária. Basta um tropeço e tchum... acabou-se. Agora tudo é morte. A morte não evolui prá nada.
O telefone toca.
- Alô?
- André?
- Oi!
- Como você está?
- Tô bem.
- Vamos sair? Quer conversar?
- Não, véio, hoje quero ficar em casa.
- Que é isso cara. Vamos nos distrair. Posso passar aí?
- Se você quiser...
- Tá. Vou resolver um probleminha na escola da Camilinha e depois passo aí.
- Tá.
- Até já!
- Até já.
Ainda bem que não tivemos filhos. Quem ia contar a eles. Por outro lado, hoje eu teria um pedacinho de você aqui. Foi melhor não. Não quero temer perder mais nada. De onde pode vir tanta dor, quando se perde alguém? De novo o nó! Porquê não explode de uma vez!!! Porque não choro tudo e toco a vida. Preciso sair. Mas do que adianta? Vou acabar na praia de novo. Olhando prá nada, pensando em você.
Fecho os olhos e vejo você sorrindo. Jogando os cabelos, roendo as unhas. Você era linda. Lembro quando você teve febre e ficou dois dias na cama. Toquei violão e li alguns poemas para você. Na fragilidade de seu corpo é que encontrei abrigo. Aqueles dias foram bons. Despejei em você todo o sentimento que pude. Jamais poderia supor que aqueles dias eram dias eternos. Às vezes conseguimos identificar um momento eterno. Às vezes, não. E quando finalmente percebemos, que ele era eterno, já passou.
A porta. Deve ser Rodrigo.
- E aí?
- Entra.
- Reunião de pais e mestres a essa hora é dose. Cada dia eles inventam uma diferente. O pior é ter que agüentar aquelas mães falando bobagens. Ah! Por que meu filho faz isso! Por que minha filha fala isso! E eu lá com a maior cara de babaca! Único pai no meio de um monte de mães. Até tinha um velho, que acho que era avô de um pentelho daqueles. Mas não conta. Ele não tava entendendo nada mesmo!
- ...
- Que cara é essa André? A vida continua!
- Que vida Rodrigo? Não resta o que viver!
- Você precisa sair desse buraco, cara. A Alessandra gostava muito de você e tenho certeza de que não ia querer te ver assim. Vamos beber alguma coisa. Vamos ver um filme. Vamos fazer alguma coisa.
- Vai, senta aí. Vou pegar uma garrafa de vinho. Essa já acabou.
- A vida é muito injusta Rodrigo. Uma hora você está ao lado de quem você ama, noutra, tchum, acabou-se. É pó!
- É André. A vida é dura. É só prá quem quer viver. Vê a Luciana. Achou que nosso casamento era uma merda. Juntou os trapos e zarpou. Nem olhou prá trás. Queria viver. Nem ligou prá Camilinha. Prá Camilinha cara, a filha dela! Agora eu nem sei por onde ela anda. A vida é uma só, André. A gente tem que viver aquilo que nos cabe. O que cabia a Alessandra eram esses trinta e poucos anos. Ela viveu e viveu bem, porque você deu isso a ela, cara! Você amou a Alessandra como ninguém. Agora volte a viver. Daqui a pouco você vai encontrar outra pessoa. E a vida vai seguir até que você esgote o que lhe cabe.
- Vamos lá véio, levante a cabeça. Sai dessa!
- Você não tá entendendo! A Sandrinha era a única coisa que me importava nessa vida.
- Eu tô entendendo sim! Eu tô entendendo que você está sendo egoísta e não quer se dar a chance de tocar a sua vida! Vamos lá. Vamos dar uma volta.
Levanto e caminho com Rodrigo em direção a porta, como se o vento me carregasse. Rodamos por alguns lugares e lá pelo meio da madrugada estou de volta. De volta ao vazio. De volta a nossa casa. Não consigo me lembrar como nos conhecemos e como tudo aconteceu. O que parecia uma forte amizade, tomou volume e nos envolvemos de uma forma irreparável.
É engraçado, lembro que quando começávamos a namorar alguém, corríamos a contar um para o outro. Acho que, involuntariamente, já queríamos nos fazer ciúmes. Queríamos perceber as reações. Mesmo assim, quando tudo passava, voltávamos a nos encontrar e desabafar mais uma desilusão.
Até que percebemos como éramos iguais e como éramos, NÓS. Até que nos tocamos de uma forma diferente. Naquele dia senti um arrebate, um arrepio! Percebi seus seios entumescidos, contra meu peito e percebi que alguma coisa também me acontecia. Meu sangue bombeou de forma diferente. Senti tua boca úmida, tua língua, teus braços e teu cheiro. Não fui capaz de perceber que aquele era um momento eterno. Não naquela hora! Estava atordoado com tudo. Nos despedimos rapidamente e fui para casa com as idéias atropeladas.
Hoje tudo é pó! O dia já amanheceu. Caminho de novo para a praia. Paro para ver o mar. Calma e fúria. Mais uma vez mais uma vez me pego olhando minhas mãos. Mais uma vez calculo a distância intransponível da vida para a morte.
MOTELOGIA - Apologista do Motel
O mundo está cheio de motéis. Por isso tem que haver uma ciência que dê conta deles. O nome dela, seguindo vários exemplos, como arqueologia, meteorologia, tem que ser motelogia. Eu não sou um motélogo comum, minha visão vai distorcida. Pois eu não olho o motel como quem passa por ele sob o efeito da gravidade. Eu pretendo fazer uma abordagem de pombo. Pois olharei o motel do alto, do vôo e do seu telhado. Tal qual a pomba que sobrevoa e descansa em cima do frontispício ou das telhas mesmas. Vou fazer uma metafísica. Isto é vou tratar de fazer a sutileza e transcedência no decorrer da obra moteleira. Também pretendo refazer idéias de Pietro Pomponazzi, de Nicolò Macchiavelli e de Desidério Erasmo de Rotterdam. Tudo isso expoentes do humanismo, homens que influenciaram o mundo depois deles. O maquiavélico é, antes de ser um pérfido, como dizem todos, alguém que manda o político ser desonesto, pois a massa considera apenas as aparências e os resultados de um empreendimento. Ou seja, o fim justifica os meios. Como diz todo mundo do Brasil. Já Pomponazzi, ensinou que a antiga dupla verdade, já pensada em Aristóteles e estóicos era certa. O que é válido aos olhos da fé, pode não o ser aos olhos da razão. Rotterdam disse que diante de um dilema, nenhuma das 2 partes opostas exprime perfeitamente a verdade. Agora falo da metafísica: motel é igreja. Uma grande igreja. Ninguém reparou isso, todos só vêem com os pés no chão, eu como passarinho. A igreja passa anos ensinando e preparando os indivíduos para se chegar no céu. O motel, sem ensinamento nenhum, faz que mulheres gerem embriões aos milhares, todos são mal-vindos, e a maioria, por isso mesmo, acabarão não completando o tempo suficiente para nascer. Pra onde eles vão? Pro céu, sem perigo de inferno nenhum. Tudo mais eficiente do que a igreja. Chegou a hora de Pomponazzi, da sua frase ser abordada: Aids não é castigo de Deus. Muitas igrejas pensam o contrário. Coitadas! Como diante de uma ida ao motel sem camisinha, com risco grave de prenhes, pode ser substituída por uma com método contraceptivo, e isso ter sido devido a Deus ter dado uma doença ? Deus não é idiota! Entre uma vida com gozo e um gozo sem vida ele fica com o 1o. Mas é muito comum que os religiosos pensem o contrário, por isso, o que é verdade aos olhos da fé, não o é pela visão da racionalidade. Também erra a igreja em pensar tanta coisa do aborto. Ela diz que quem vai ao motel e engravida, se abortar é mais maldito de que quem vai e não engravida. Nem falo do que vai lá, engravida e pare com mais de 2,5 kg. Pois esse realmente é menos maldito do que aquele que aborta. Mas aí se esquecer da alegria de Deus em receber um membro no céu, e dizer que ele prefere que não engravide, não creio. Os fins justificam os meios, Deus deve perdoar mais quem aborta, do que quem usou camisinha. Aqui também se percebe que Pomponazzi caiu bem. Quem é primogênito tem maior chance de ter se gerado no motel, por isso se você for, faça as contas para ver se entre o casamento de seus pais, houve mais de 9 meses ou 37 semanas de seu nascimento. Diante de um dilema, nenhuma das duas partes expressam perfeitamente a verdade, Você pode ser como o bezerro da vaca. Ou seja um serotino, nascido com 10 meses. Também tem outras possibilidades, como terem ido ao motel depois de casado, muito comum na lua de mel. Mas nada impede uma ida pós lua de mel. Ou que sua mãe tenha arranjado outro. A psiquiatria reconhece vantagens deste meu objeto de estudo. Muitos pais puritanos fornecem ao mundo pessoas para uma superstição. É o seguinte: um adolescente que vive preso a sua sexualidade, que não pode manifestar-se por ambiente repressivo em casa, termina dando os fundadores de igrejas do diabo, ou membros para as já formadas. Quer saber como elas são? 90% tem bacanal. A tão desejada liberação sexual. Botam, algumas uma mulher nua, que é manipulada, numa mesa. Depois derramam sangue de ave na vulva, bebe ele um cara encapuzado, e começa um sexo grupal. Aqui eu contrario Rotterdam, pois definitivamente, para desespero dos tradicionalistas, o diabo não existe, foi os homens que inventaram. E quem segue essa religião por falta de motel é um trouxa. Também acontece o contrário, quem sustenta até o fim sua virgindade termina pensando que foi possessa pelo diabo. Conheço um caso de uma virgem que um padre expulsava constantemente um capeta, mas ele sempre voltava. Quando a mulher casou, ele foi embora para sempre. Motel é linguagem universal, fala-se motel na França, Itália, Portugal, Espanha e Inglaterra. Talvez em até outras falas. A finalidade do motel é a de um imã. Pois os opostos se atraem. Já disse que desagrada mais a Deus uma relação infértil, portanto não tem sentido receber dois homens, duas mulheres. Embora como em quase tudo Rotterdam está certo, aqui também ele tem razão,tem certas relações homossexuais proveitosas, pois a finalidade de religião do motel também se estende aos casais que pegam aids e vão se converter pela via da igreja, só depois de terem se fodido no duplo sentido. Ou seja, o motel serviu de instrumento de encontro pessoal com Deus, antes da igreja e da morte. Mas nem por isso Deus fez a aids, tendo em vista que 20% dos nascimentos de fetos inviáveis e bebês vêem do motel, e só 10% é que é a quantia de aidético. E besta é quem pensa que ele não é um bom matemático. Pelo já avisado, quando for ao motel, não use camisinha, nem parceiros homossexuais, nem menopausadas e nem outros métodos anticonceptivos.Vá de uma forma que Deus possa se agradar, pense nele que é tão bom. Metafisicamente, Deus não abomina motel, Deus ama motel, gosta muito dos tarados e taradas. Dizem que Deus gosta de todo mundo que nasce. Minha pesquisa diz que 1/4 das pessoas que nascem de 7, 8 e 9 meses vêm do motel,1/2 dos abortos vêm do motel. Dá um total de ¾, desses, com certeza, a maioria vai ao céu, pois são inocentes que morrem. Fazendo as contas ao avesso é: 1/5 de tudo o que há é motel. Muita gente que você conhece e que teve grande prestígio nesse mundo veio de lá. Se Deus gosta das pessoas, ele até se alegra com o motel. Faça um quadro pro seu quarto com essa frase que eu criei: motel é o responsável por metade do céu. Ou então outro com esta outra: motel é uma alegria para Deus. Ou quem sabe 3 quadros: Se não fosse motel, Deus não se mostraria benevolente, é que Ele vai perdoar todo mundo que freqüentou motel e que gerou, nem que seja um aborto. Ou esta quarta: motel só é pecado e com falta de perdão quando foi só gozo sem ovo ou zigoto. Ou esta quinta: Deus sofre com a aids, pelo incremento da camisinha, mas também se alegra, com os adultos que se convertem. Eu não gosto dessa merda, pois sei lá em cima do que eu estou deitando. Mas pretendi com este assunto ter reabilitado o motel em sua vida.
TRATAMENTO DO
MERECIMENTO - Cristiane Castiglioni
Sou merecedor. Mereço tudo o que é bom. Não uma parte, não um
pouquinho, mas tudo o que é bom. Agora me afasto de todos os
pensamentos negativos, restritivos. Liberto e deixo ir as limitações
de meus pais. Eu os amo e vou além deles. Não sou suas opiniões
negativas, nem suas crenças cerceadoras. Não sou contido por
nenhum dos medos ou preconceitos da sociedade em que vivo. Não
me identifico mais com limitação nenhuma.
Em minha mente, sou livre. Agora me transporto para um novo espaço
de consciência, onde estou disposto a criar novos pensamentos
sobre mim mesmo e minha vida. Meu novo modo de pensar torna-se
uma nova experiência.
Eu agora sei e afirmo que sou uno com o Poder de Prosperidade do
Universo. Assim, prospero de inúmeras maneiras. Está diante de
mim a totalidade das possibilidades. Mereço vida, uma boa vida.
Mereço amor, uma abundância de amor. Mereço boa saúde. Mereço
viver com conforto e prosperar. Mereço alegria e felicidade.
Mereço a liberdade de ser tudo o que posso ser. Mereço mais do
que isso. Mereço tudo o que é bom.
O Universo está mais do que disposto a manifestar minhas novas
crenças. Aceito essa vida abundante com alegria, prazer e gratidão,
pois eu sou merecedor. Eu a aceito, sei que é verdadeira.
BÁRBARA - Cristina Resende Faria
É pena que a vida seja tão pequena! Pois o que não lhe faltam são cenas.
Click1: Bom dia, ela acorda toda linda! Abre a janela e a cidade continua maravilhosa! Escova os dentes; trocar de roupa é mesmo uma novela! Na qual o sapato deve combinar com a bolsa. Bobagem! Bárbara vai de chinelos! Sai do quarto e se lembra. Lindo e inteligente o rapaz com quem saiu ontem. Ontem, ontem...pena não poder voltar no tempo. Mas o hoje parece aceitável e o amanhã será melhor ainda! Cada gole de café é diferente. O primeiro molha a boca, o segundo avisa a língua seu sabor, o terceiro acorda quem bebe e o quarto é um exagero. Acabado o café, hora de sair. Bota o pé na rua. Tá armada a cena! Agora a coisa virou cinema, uma grande arena. Tudo é bárbaro! E ela sabe disso...do valor de cada par de olhos anônimos, que passam apressados pela rua. Até mesmo daqueles olhos amendoados, de um menino assustado que vem em sua direção. Pede-lhe um trocado. Bárbara diz que não tem e sorri. Mas o menino faz cara feia e tira um canivete da calça. A blusa branca agora está vermelha e a bolsa, que não combina com os chinelos, some das mãos do menino que desaparece entre a multidão. Bárbara! Agora em sua cena final, deixa o público bestificado com seu desempenho...parece mesmo morta ali no chão! É pena Bárbara, é pena. Que a vida seja tão pequena. Afinal, nem aplaudida foi, por esta tão bela cena.
AMOR INTERNÉTICO - D.Y.H
Ainda sinto aquele gosto amargo e sufocante de seu corpo. Lembra quando o seu e o meu futuro era um só? Teclamos no mesmo compasso de nossos corações. Nas salas de chat, somos quem queremos ser. Alguns dias e de você fiz o desenho mais perfeito que já se imaginou.
Quando nos encontramos pela primeira vez, você me pareceu menos do que imaginava, mas isso não importava. Eu também menti. Não era perfeita. Na solidão, nos agarramos a qualquer um.
Na Internet somos todos iguais. É o começo do fim. Somos como os heróis romanos, semideuses perfeitos. Palavras, vãs palavras. Cada teclada encanta e enfeitiça. "Oh, preciso conhecê-lo. É perfeito para mim." Doce ilusão...
Primeiro encontro: tudo muito sofisticado, moderno, descolado. Os dois estão nervosos, preocupados que estão em manter a imagem que criaram. As promessas, sonhos e tudo que foi feito virtualmente agora choca-se com a realidade fria e cruel.
Mundo real. Tudo que era doce, ficou salgado e logo vem aquele gosto de fel. Forte e cego, surge aquela tensão. Será tensão sexual? "Vamos conhecer meu apê?".
Impacientes e indecisos, deixam-se levar pelo momento. E o medo de ter medo desaparece entre lençóis. Dois seres que se conhecem virtualmente copulando como os mais primitivos animais.
Depois, sempre as mesmas desculpas. Desculpas não sinceras, como tudo desde o começo. É sempre o mesmo novamente. De tudo que inventamos, só restou o que eu sei que você sabe. Tudo acaba em lençóis que nem tiveram tempo de se sujarem. E as lágrimas que brincaram com você, brincaram comigo também.
Quanto mal eu te fiz. E quanto mal você me fez. Mundo do computador chocando-se com o mundo real só encontra um caminho: desilusão. "Seus olhos não eram verdes? Você não é executiva? Você é casado!".
Do computador começou nossa relação. E por e-mail terminamos. Só que agora é diferente. Estou tão tranqüila... Não preciso me esconder em nicknames. Você sabe quem sou e se decepcionou. Assim como eu me decepcionei com você.
Vamos fingir que acreditamos no que inventamos. Essa saudade vazia se tornará uma lembrança boa, recordações de quando éramos perfeitos.
É saudade então. Não de você real. Mas de você virtual. Seu cheiro forte, lentamente me deixou. Agora só tenho a lembrança da vida que cada um inventou misturada com a promessa de sermos reais. Promessa que nunca fizemos...
FELIZ ANO NOVO - D.Y.H.
Fogos, champagne borbulhante, toneladas de comidas. Mais uma virada de ano, mais uma lista de promessas, mais um minuto de reflexão. Minuto para pensar na vida que passou, na vida que ainda temos à nossa frente. Quando o copo esvazia, a alma começa a ficar ofegante. O tédio bate à nossa porta e vemos como nosso destino é estreito. Pior, vemos como somos ridículos, com nossos humilhantes limites. Esse despertar dura segundos, mas nos marca profundamente como só as vergonhas mais vis conseguem marcar.
Amanhã é um novo dia. Quantas vezes usamos essa frase por ser o caminho mais fácil? O que me aterroriza é despertar e ver que sou a mesma pessoa da véspera.
É insuportável ver que continuo basicamente a mesma pessoa. Suspeito que serei essa insignificância eternamente.
Se eu fosse vc, ou outra pessoa qualquer, seria mais amada, mais bonita, mais magra, mais elegante, mais feliz, mais tudo.
É fácil viver a vida dos outros, tudo parece fácil de ser consertado. A impressão que tenho é que sou a pessoa mais infeliz do mundo e quando penso que a auto piedade é um dos sentimentos mais baixos, além de infeliz, sinto raiva de mim mesma.
Ah, obrigada...Finalmente encheram meu copo. O sorriso triunfante, de mulher bem sucedida volta à ativa. Enquanto o copo estiver cheio, a alma prefere a ilusão da vida perfeita.
Que venha o novo ano, com todas as suas poucas alegrias e com suas inúmeras decepções.
Desde que o copo se mantenha sempre cheio, vamos viver, temos muito que fazer.
Feliz Ano Novo...
SOLIDÃO - D.Y.H.
Primeira semana de janeiro. Dentro do amplo salão, poucos clientes. É verão lá fora, mas lá dentro tudo era gélido para cabeleireira. Toda de branco, tremia. Não pelo ar condicionado. Tremia por dentro. Num canto, imóvel, a revista pendia das suas mãos. Estava totalmente absorta. Se o mundo acabasse lá fora, nem se moveria...
Já faz muito tempo que não sai do lugar. Começara às nove e ainda não atendeu ninguém. O sol lá fora está a pino e o burburinho da rua começa a chegar de mansinho.
- Ei, mocinha! ouve alguém gritar. Mocinha!
Sobressaltada, vê a patroa encarando-a.
- Ei, tem uma cliente para você. Vamos, acorda, menina!
Levanta-se lentamente e vai para sua cadeira. A cliente senta. Num gesto mecânico, começa a fazer seu trabalho.
- Cuidado, garota! grita a cliente. O que é isso, quer cortar minha orelha?
A patroa chega, desculpando-se por ela. De soslaio, solta faíscas. A cabeleireira olha para ela e gira os olhos amedrontados, como se não compreendesse onde está e o que está fazendo ali.
- Que experiência, hein? ironiza a cliente.
Bia volta-se para ela e mexe os lábios. Quer dizer alguma coisa, mas de sua garganta só sai um fio de som.
- Quê? pergunta a cliente.
- Senhora, eu... fiz um aborto esta semana.
- Ah! Aborto natural?
- Não, eu...
- Anda logo, garota. Preciso estar pronta em 10 minutos!
Pelo espelho, a cabeleireira olha várias vezes a sua cliente, mas ela fechou os olhos e, ao que parece, não está disposta a ouvir. Depois de terminar, volta para o canto e para sua imobilidade. O tempo passa...
Duas jovens tagarelas entram no salão. São belas e bem nascidas, como todas as freqüentadoras do badalado salão.
- Oi, Bia. Preciso que você deixe minha amiga ma-ra-vi-lho-sa. Ela tem um encontro especial essa noite...Ela lança um olhar cúmplice para a amiga.
Bia pega sua escova e dá um suspiro. Pouco importa quem vai pentear e muito menos para que. As duas conversam animadamente, rindo e fofocando.
- O que você ganha mentindo tanto, tolinha. Acho que eu vou acreditar nisso?
- Mas eu estou te dizendo...
Bia sente a conversa delas. Pela primeira vez no dia vê as pessoas em volta, e a tristeza aos poucos vai se diluindo. As duas estão falando de um certo rapaz. Seu olhar vai de uma à outra, pelo espelho. Aproveitando uma brecha, ela se vira e sussurra.
- Esta, semana... eu fiz um aborto.
- Ora, todo mundo faz isso suspira a cliente. Anda, mais depressa, mais depressa! Ainda precisamos escolher a roupa!
- É, anda logo. Nossa, se eu soubesse que sua cabeleireira era tão lerda...
Bia volta ao seu trabalho, mas ainda presta atenção na conversa das duas e dá uma risadinha por dentro. Essas duas são engraçadas...
- Bia, você é casada?
- Eu? Não fui condenada a isso ainda. Meu filho é que foi condenado, mas à morte. Vocês são tão engraçadas... Ei, foi só uma piadinha...
E volta-se para contar como tudo aconteceu, mas, nesse momento, termina o penteado. Bia recebe e vê as duas desaparecerem pela porta. Seu olhar inquieto e doloroso percorre o salão. Entre tantas mulheres, não haveria uma que a ouvisse? Mas essas mulheres apressadas não têm olhos para ela, muito menos para seu sofrimento. Sofrimento imenso, sem limites, que inunda e inebria todo seu ser. Mas nem por isso Bia é menos invisível...
Vê a patroa tomando um cafezinho e resolve puxar conversa.
- Que horas são?
- Já são quase sete... Esses empregados, só pensam na hora de ir para casa!
Bia suspira e se entrega à sua dor. Dirigir a palavra às pessoas não adianta nada. Sacode a cabeça, como sob efeito de uma dor aguda, e se levanta. Não agüenta mais, "dormir" é só o que deseja, "dormir".
Murmura alguma coisa para a patroa e vai embora. Uma hora depois está ao lado de uma pia suja. Em volta da pia, as moscas passeiam. Uma atmosfera sufocante, insuportável. Bia olha desolada as moscas, balança a cabeça e se arrepende de ter voltado tão cedo.
A moça com quem divide o apartamento chega. Tem alguma coisa para comer? Estou morta de fome!
- Morto está meu filho. Não sabia? Fiz um aborto esta semana. História curta, mas dolorasamente triste...
Aguarda uma reação. Mas suas palavras não produziram nenhum efeito. Tem tanta necessidade de falar quanto a outra tem de comer. Logo fará uma semana que abortou e ainda não conseguiu falar com ninguém. Essas coisas se fala com sentimento, com calma.... A gente conta como era o cara, o que rolou entre eles, a decisão de fazer o aborto... A gente descreve os detalhes, a ida à clínica. Assunto é o que não lhe falta. Quem escutar vai também lamentar e suspirar....Melhor é entrar na net, checar e-mails... Amanhã é domingo e poderá dormir até enjoar.
Bia se troca e vai para frente do computador. Pensa no carinha, no salão, no tempo que está fazendo... Pensar no que fez é insuportável. Falar com alguém consegue, mas pensar sozinha, lembrar da dor, é intolerável.
- Está lento hoje? pergunta, olhando a tela enchendo-se de cores. É estou tão só... Ele era um cara bom, mas foi embora. Assim como meu filho....
Fica alguns instantes sem dizer nada, e prossegue.
- É isso aí. Tudo acabou. Pai e filho disseram adeus... Uma noite na Internet, uma noite na sua cama. Um dia um filho, um dia um aborto... Não é triste? Na salas de chat somos perfeitos, bonitos, estáveis financeiramente, companheiros... Você só acorda para a realidade quando leva um baque desses.
O computador parece interessado e com paciência...Bia não resiste e lhe conta tudo, desde as primeiras tecladas no bate-papo.
POR QUE VIOLÊNCIA? - Danielle Williams
O mundo está só, os habitantes do mundo estão sós. Cada um na sua, curtindo o seu estado violência. Quando deveríamos nos orgulhar, sentimos inveja. O que muitas vezes leva uma pessoa a roubar o que o outro conseguiu com muito trabalho e esforço. Onde deveria existir Amor, existe Ódio. Onde deveria haver compaixão, há indiferença. Deveríamos perdoar ao invés de sentir rancor. Esta contrariedade nos isola do mundo, nos causa solidão, nos torna fracos, nos tira o poder e, principalmente, a vontade de reagir. O violento faz mais uma vítima, antes solidária, agora, também solitária em seu estado violência. Estamos presos em nós mesmos. Os maus sentimentos não nos permitem viver em harmonia. Qualquer olhar passa a ser motivo de agressões. Temos receio de nos cumprimentarmos, o que deveria ser obrigação da nossa parte. Sabemos o que falta, mas não sabemos o porque falta. Falta Amor. Devemos Amar em Eros, Philos e Ágape. Ágape é o amor que devora quem o experimenta, é o mais bonito de todos os sentimentos. Incomparável é a sua beleza. Philos é o amor em forma de amizade, aquele que sentimos por nossos irmãos, pais, tios, etc... e que deveríamos sentir por todos ao nosso redor, até mesmo por nossos inimigos. Eros é o amor entre o homem e a mulher, indispensável na vida de todos nós. Enfim, para que possamos dar fim a esta fase em que se encontra a humanidade, precisamos nos conscientizar de que é preciso amar, de todas as maneiras e com toda nossa força, todas as coisas do universo.
VÍTIMA PERFEITA -
Elisete Queijo
Mulheres solteiras são fruto de uma sociedade totalmente atual
onde as
necessidades de igualdade fizeram a mulher buscar capacitação
profissional,
social, pessoal. Muitas vezes, porém, para os menos modernos ela
pode se
transformar, também numa....
Vítima perfeita....
Bonita, classe média, superior completo, pensando num MBA, inglês
fluente,
sai só, viaja para lugares longínquos... sozinha, sem
aventuras, com muito
conforto, carro combinando com seu estilo moderno e, por que não:
conservador.
Esta é Mariana, 36 anos, paulista, do mundo. Nossa vítima
perfeita!
Mariana jamais sonhara que seria vítima por um dia, mas
aconteceu de repente.
Quando mudou para seu apartamento, após a pintura, notou que
logo aparecera
uma mancha de mofo no teto: era um vazamento proveniente do
banheiro de seu
vizinho. Na época, Mariana, com 20 e poucos anos, ainda sem
muita
experiência em folgados abusados, achou que era só avisar o tal
vizinho do
ocorrido e ele consertaria o tudo.
O vizinho ignorou sua presença e ela teve de pintar novamente o
teto onde
aparecera a famigerada mancha. O mesmo aconteceu mais duas vezes
quando
Mariana soube que o vizinho deveria pagar a pintura por direito
legal do
prejudicado.
Na próxima vez que a mancha apareceu, Mariana, já totalmente
business,
agendou horário com o tal vizinho num encontro rápido no
elevador e como
combinado subiu às 19:00h decidida a comunicar ao vizinho o
valor da nova
pintura e exigir ressarcimento.
Com a mesma educação e sorriso de sempre, foi muito bem
atendida até a parte
em que ela falou sobre o tal ressarcimento. Nessa hora o
encantador e bom
vizinho transformou-se em um dinossauro pronto a engoli-la. Começou
a gritar
que ela era louca, inconveniente em vir em um horário daqueles
...tarde da
noite (!!!!!) - eram 19:00...
Seus gritos ecoavam, no corredor, e Mariana, desconcertada,
tentava
apaziguá-lo lembrando-o que ele mesmo sugerira o horário. Ele
esbravejava,
sua louca, inconveniente é que o você é, louca...
Mariana tentava falar com ele em vão, tentou o mesmo com a
esposa que virou
as costas e entrou. O vizinho, de penhoar e pijamas, chegou a
abrir o
penhoar, segurar com força as calças do pijama: olhe, eu estava
dormindo,
dormindo sua louca, você me acordou, você não tem o mínimo
respeito pelo
descanso de alguém, sua desvairada, sem família, inconveniente,
inconveniente, inconveniente....
Mariana, em vão, balbuciava ainda educadamente...mas o senhor
marcou o
horário, 19:00h!!! , podemos agendar outra data e horário, qual
o senhor
prefere para tratarmos deste assunto...
- Inconveniente, inconveniente......
As palavras ecoavam na cabeça de Mariana, os gritos, os gestos,
o vizinho
abanando as calças do pijama, suando, descabelado, de chinelos
- Inconveniente, inconveniente...
- De repente, no meio da gritaria...silêncio. Mariana que ,
totalmente
desnorteada, olhava para um ponto lateral na parede para desviar
os olhos da
tal calça do vizinho que chegava a ser um desrespeito pela forma
como ele a
sacudia, surpreendeu-se pelo silêncio e voltou seus olhos ao então
calado
vizinho. As feições dele agora eram meigas e tranqüilas, quase
como as de um
pai. Ela até duvidou da própria sanidade mental. Deteve-se a
olhá-lo sem
entender...o vizinho com um meigo sorriso a convida para entrar e
conversar
com ele e sua esposa.
- O quê? Conversar o que com sua esposa?
- Sobre o vazamento, não foi isto que você veio nos falar?
- Hã?
- Você quer conversar em outra data?
- Como?
- Mariana sem entender nada. Aquele demoníaco abanador de calças
transformara-se agora em um meigo e amistoso vizinho
Mariana não estava entendendo nada, ele quer que eu entre?
- Vamos Mariana, não quer entrar e sentar um pouco, tomar um
suco?
- Hã? Entrar, sentar?
De repente, ao olhá-lo, Mariana notou que o meigo vizinho olhava
para ela e
algo atrás dela. Quando ela virou-se para trás, quem estava lá?
Seu meigo e
babaca namorado Pérsio. Sim, o namorado de Mariana.
Pércio mereceria um episódio à parte, mas sua descrição, a
grosso modo, é a
de um eterno medroso, com medo até de baratas (razão que
detonaria o
relacionamento, futuramente teremos notícias no caso da barata
que leremos em
breve). Que jamais se envolvia em nenhuma discussão, até pelo
seu lado
covarde, totalmente hereditário: não namorava no carro com medo
de
assaltantes, nem mesmo na garagem do prédio de Mariana, nunca
falava mal para
o pai de Mariana (que realmente tira todos seus namorados do sério!)
Pércio nada falara ou falava, nenhuma expressão
facial/corporal, permanecia
inerte, segurando babacamente a porta do elevador, até por medo,
até por nada
ter a falar. Apenas olhava para o vizinho, nada falava. O
vizinho, por sua
vez, insistindo que eles entrassem. Mariana, naquele triângulo,
teve sua
primeira lição de impotência: por ser solteira, por ser
mulher, por estar ela
mesma resolvendo o assunto de ressarcimentos com um homem, ela
Mariana, era,
naquele momento, a vítima perfeita: o vizinho teria seu
vazamento latrínio
sobre a cabeça de Mariana e jamais a pagaria por ser ela uma
proprietária
solteira e mulher.
O vizinho mudou seu comportamento apenas perante Pérsio, mas,
uma vez que
este nada falou e jamais voltou à cena. O vizinho nunca pagou a
tal pintura e
ainda passava com uma certa cara debochenta para maior irritação
de Mariana
É, não foi desta vez, mas Mariana teve um aprendizado: era a vítima
perfeita
até que pudesse virar a mesa e aprender a ser firme, impassível
e lutar pelo
seu direito à moradia dentro da conformidade da lei. Sem,
diferencial de cor,
sexo, credo, etc, etc
Hoje com alguns episódios semelhantes, em diferentes áreas...Mariana
sabe
muito bem como lidar com situações simples como esta. Muitas
vezes ri da
impressão que transmite hoje: uma mulher, bonita,
auto-suficiente, firme que
caminha a passos largos pela vida. A vítima perfeita? Ficou em
algum lugar do
passado...
O
SONHO KAFKIANO! - Érico Bronislawski
Saulo acordou como de costume as oito da manhã, e como de
costume também, sua primeira atitude foi de aliciar seu membro,
quase sempre em riste devido a suas constantes ereções
noturnas. Mas algo estava errado! Passou a mão e não encontrou
nada, mas nada mesmo! Nem para fora pendurado, nem para dentro!
No local destinado a algum desses dois itens, nascera uma pele,
na verdade um prolongamento da barriga, liso, sem um pêlo
sequer.
Desde que leu Kafka não tirara da cabeça a vontade de viver um
momento Kafkiano, tipo acordar e ter se transformado em uma
barata, ou quem sabe, acordar sendo condenado por um crime, mas
cada um tem o destino que merece. Conseguiu seu momento, mas
infelizmente não foi da maneira desejada. Acordara sem pênis! O
que é um homem sem pinto! É uma mulher? Não, pois não
possuía genitália feminina! Era homem? Interiormente e na
carteira de identidade era, mas o que é um homem sem pênis?
Não é homem. Nem o toco ficou, como já disse, ficara uma
prolongação da barriga.
Saulo entrou em desespero! Movimentou-se um pouco na cama e para
seu desespero aumentar ainda mais, tinha uma mulher ao seu lado!
O que fazer com uma mulher, nua em sua cama, você sendo
teoricamente um homem, mas sem o material de trabalho? Ficou
louco, mas não fez barulho, para não acordar a moça, que não
sabia nem quem era.
Seu desejo era de conquistar todas as mulheres possíveis em
vida. Estava cumprindo a risca, mas algumas não gostaram de ser
apenas objeto de prazer. Para Saulo não tinha tempo ruim.
Transou certa vez com uma moça tão gorda que acreditava que
tudo se resumiu a esfregar-se nas pernas dela. Teve um caso com
uma mulher perneta e em sua concepção fora uma de suas melhores
amantes, tirando alguns tombos devido a falta de equilíbrio.
Certa vez transou com uma macumbeira sobre um despacho, velas,
galinha preta, pinga, e até baixou a pomba gira na moça.
"- Foi ela! Macumbeira desgraçada, aquela macumba fez isso
com minha piroca".
Fora isso que acontecera, depois da noite de prazer com a
macumbeira, na hora de despedir-se Saulo dissera "até nunca
mais".
- Como assim até nunca mais?
- Não pretendo vê-la mais, foi apenas uma noite de amor!
- Quem você pensa que eu sou?
- Não sei nem tenho a mínima curiosidade em saber. Passar bem!
- Que seu pinto desapareça, nunca mais você fará isso com
ninguém!
- Pare com essas besteiras, se macumba funcionasse...
Estava esclarecido o problema. Agora deveria procurá-la e
implorar pelo meu pênis de volta. Como pôde ser cruel comigo!
Fazem exatos dois anos que tivemos nossa noite de amor, mas só
agora realizaria seu desejo? Se pudesse voltar no tempo faria
tudo diferente. De que adiantou comer tantas mulheres e hoje não
ter um pênis nem para urinar? De que adiantou me aproveitar de
tantas e hoje não poder nem um cinco contra um? Mas...
Saulo acordou como de costume as oito da manhã, e como de
costume também, sua primeira atitude foi de aliciar seu membro,
quase sempre em riste devido a suas constantes ereções
noturnas. Estava ali, seu membro pulsante e quente depois de mais
uma noite de amor. O que acontecera? Algo estava errada. Minutos
antes estava sem pinto, agora estava ali, ereto como de costume.
Sonhara, na verdade, fora um pesadelo, mas tudo voltava ao
normal. Uma mexida na cama e lá estava, ao seu lado, uma mulher
atraente, nua a espera de novas estocadas. Uma viradinha, não
pode ser... Era a macumbeira de seus sonhos! A moça acorda e
pergunta assustada:
- Por que você está com essa cara?
- Não é nada, fique tranqüila. Por que você não volta a
dormir!?
A moça dormiu, Saulo foi até a cozinha e pegou uma faca. Voltou
ao quarto e desferiu trinta e duas facadas na moça. Trinta e
duas era para garantir, e aliviado voltou a dormir. Tinha certeza
de que agora não precisaria se preocupar com seu pênis. Mas...
Saulo acordou como de costume as oito da manhã, e como de
costume também, sua primeira atitude foi a de aliciar o membro,
quase sempre em riste devido a suas constantes ereções
noturnas. Mexeu-se um pouco na cama e lá estava, uma mulher
deitada, nua e extremamente atraente. Uma aproximação e... Meu
Deus! A moça estava morta, com trinta e duas facadas. Uma olhada
mais de perto e... Não pode ser!? Era sua irmã! O que sua irmã
estava fazendo em sua cama, e ainda por cima morta? Será que
matara a própria irmã? Será que... - Não acredito, será que
transei com minha irmã? Será que minha sede por mulheres é
tão insaciável que nem minha irmã perdoei?
Saulo estava desconsolado, como poderia ter acontecido tantos
absurdos em uma só noite. Ficou sem pênis, recupero-o, transou
com a macumbeira, ou será que foi sua irmã, matou sua irmã
pensando que era a macumbeira. Não restava outra alternativa,
dentro de instantes chegariam seus familiares e não entenderiam
o que tinha acontecido. Ninguém acreditaria na história do
pênis, nem na macumbeira, principalmente como justificativa para
a morte de sua irmã. Não restava dúvidas. Saulo foi até o
cofre, apanhou sua arma. Colocou o cano em sua boca e atirou.
BUM!!!
Padre Marcelo acordou como de costume as oito da manhã, e como
de costume também, sua primeira atitude foi a de aliciar o
membro, quase sempre em riste devido a suas constantes ereções
noturnas. Que noite louca! Para completar uma boa masturbação
para deixá-lo descansando durante o dia todo, e a noite, estar
apto para entrar em ação novamente. Tantas coisas aconteceram
na última noite, mas eram essas coisas que o excitavam. Suas
fantasias mais obscuras eram trazidas a tona todas as noites.
Tudo o que ouvia durante o dia no confessionário, nas pedidas de
benção, nas conversas das beatas que não tem o que fazer da
vida, eram seus combustíveis para sonhos noturnos. Mais uma
noite feliz, o prova da perfeição do sonho era o membro ereto,
como uma vara. Estava preparado para mais um dia de trabalho, e
com a certeza de que à noite não lhe faltaria criatividade.
Sabe como é, o povo faz cada coisa, e depois vem pedir a
benção!!!
A
MESA - Hideraldo Montenegro
Sentou-se numa mesa de um bar e passou vinte anos. Esqueceu
esposa, filhos, gato e cachorro. Voltava para casa, sempre muito
tarde, mas a mesa continuava em sua vida.
Na verdade, foi a mesa que se sentou em sua mente. Por isso, não
conseguia escutar nada do que falavam para ele. Mesmo quando
acordava ainda estava entorpecido e com a mesa em suas idéias.
O que será que ele encontrou nela?
Uma vida autêntica, onde era forte, rico, poderoso, garanhão e
o mais inteligente. Por que as pessoas não conseguiam entender
isto? Ele não conseguia compreender. Ou, de fato compreendesse.
"Elas não me vêem. Não conseguem vê o que sou realmente.
Talvez elas precisassem beber para conseguir ver a real essência
das pessoas."
Lá, naquela mesa, era feliz, verdadeiro. Todos, dizia quando
resolvia fazer discursos inflamados pelo álcool, são uns
hipócritas. São caretas, cegos e imbecis.
Sempre que ele fazia aquele discurso escutava aplausos. Ás
vezes, conseguia até um brinde grátis, pago por alguém
empolgado com suas palavras.
-É isso aí! Vou lhe pagar uma dose por estas sábias palavras!
Todos são hipócritas! Até o meu cachorro é um hipócrita!
Outro dia, o chamei para levar um papo e, ele, nem aí. Não deu
a mínima!- Disse um companheiro de copo entusiasmado com aquelas
palavras pronunciadas por ele.
Mas, a conversa predileta ali, naquela mesa, era sobre as suas
esposas. Todas eram umas incompreensíveis. E, esta constatação
os unia mais.
-Mais uma dose!
Naquela mesa a vida se revelava mais clara. Todos ali eram
gênios incompreendidos. Os outros, lá fora, não conseguiam
perceber o valor deles, por isso eles os desprezavam.
-Um brinde!
Então, falavam de política, sexo, esporte, religião e do
passado. Não tinham mais projetos. Eram, agora, apenas esponjas.
Para ele, a descoberta da bebida foi como um colírio que abriu
os seus olhos para a realidade. Antes era um cidadão pacato,
tímido. Tinha vergonha até mesmo de falar.
Agora não, era a pessoa mais conhecida naquele bar. Muitos, às
vezes, sentavam naquela mesa só para lhe escutar.
Tinha parado de trabalhar, de copular e de comer. Há muito que
não fazia sexo, praticava esporte ou participava de alguma
ação comunitária. Entretanto, achava o seu viver concreto,
real, efetivo. Ao menos tinha orgulho dos elogios que os outros
companheiros de copo faziam à sua eloqüência alcoólica.
Era isso! Ali ele se sentia importante, o tal..
Um belo dia, como de costume, sentou-se à mesa. O bar ainda
estava vazio, era o primeiro a entrar ali naquela noite. Olhou
para a mesa e começou a conversar com ela.
O garçom achou aquilo estranho. É verdade que já tinha
assistido todo tipo de aberrações engraçadas dos bêbados, mas
falar com uma mesa...!
-Minha cara, a vida é uma ilusão! Como um homem passa tanto
tempo vivendo sem existir? Vamos, me responda? O que acha?
Passou um longo tempo em silêncio. Depois se levantou e, para
surpresa do garçom, foi embora.
- Será que a mesa falou alguma coisa para ele?!
O garçom pegou uma dose e sentou-se naquela mesa. Até hoje ele
está esperando ela lhe falar alguma coisa, embora, tenha perdido
o emprego, a esposa e os filhos.
O AMANTE - Hideraldo Montenegro
O andar lento, cuidadoso faz parte da minha natureza. Sei que sou
charmoso nesta minha leveza e altivez.
Alguns me detestam por conta disto, outros têm respeito e medo
pelo mistério do meu ser. Sou seguro e manhoso. Sei conquistar.
Chego devagarzinho, mas sou efetivo em meus objetivos.
Talvez, a coisa mais surpreendente em mim seja os meus olhos.
Eles são hipnóticos, fortes, claros. Quando quero alguma coisa
sou persistente e meus olhos se transformam em armas. Ninguém
consegue escapar dos seus brilhos. Se bobear serão presas
fáceis.
Também sou meio farsante. Às vezes fico quieto, como quem nada
quer. De repente, ataco aquilo que estou pretendendo ter. Uma vez
em minhas garras, não há mais jeito.
Foi num dia ensolarado, que não me oferecia outra alternativa
senão permanecer em meu passatempo predileto, ficar deitado
pensando, que ela apareceu.
Ela me olhou de soslaio, como não quisesse demonstrar que me
havia notado e passou por mim fingindo me ignorar. Era puro
charme.
Mas, aquele seu cheiro me subiu à cabeça e me perturbou. A
posição em que me encontrava, naquele instante, era
confortável, mas fui obrigado a me desfazer dela. Dei uma
espreguiçada, fingindo também não está nem aí com a sua
presença.
Dei uma volta no ambiente para esticar as pernas e, enfim, lancei
o meu olhar em sua direção. Quando ela percebeu ficou sem saber
como agir. Eram claras as suas intenções também.
Fui me aproximando devagar, mas firme. Ela fingia decidir para
onde, supostamente, estaria indo e, quando se deu conta, já
estava ao seu lado.
Dei uma volta em torno dela e, então, ela já sabia que era
inevitável. Estava em minhas garras. Seu cheiro despertava
desejos incontroláveis.
Fizemos amor ali mesmo, pois, quando dois gatos estão no cio
não ficam com desculpas, com etiquetas.
Quem não gostou muito foi a minha dona. Até hoje sinto a dor da
vassourada em minhas costas.
BIOGRAFIA - Hideraldo Montenegro
Olhei fixamente seus lábios e, então, ele repetiu aqueles sons
engraçados. O que significavam?
- Pa...pai!
Toda vez que ele me via, repetia aqueles sons. Pensei que,
talvez, ele desejasse que eu os reproduzisse também. Para que
serviam, não sei. Mas, ele repetia tanto eles, que certamente
deviam ser importantes ou, talvez, faziam parte de uma
brincadeira. Tentei.
-Pa...
Ele me olhou espantado, demonstrando uma enorme alegria. Seja o
que for que significassem aqueles sons, eles produziam
contentamento em meu pai.
- Querida, ele está falando! Ele está falando!
Não compreendia aqueles outros sons. Só sei que estava falando
com minha mãe.
Um bebê é como um estrangeiro, tem que aprender nova língua,
novos costumes e, infelizmente, alguns vícios também.
- Pa...pai! - Repetiu ele.
Tentei novamente. Aquilo estava engraçado, seja lá o que
significava.
-Pa...
-Pa, não! Pa...pai!
Êpa! Peraí, onde foi que errei?! Ah, será a quantidade de
sons?! Vamos ver...
-Pa...pa...pa!
-Não! Pa...pai!
Onde estou errando? Ele está sendo muito exigente. Aquilo
começou a ficar chato. Comecei a me irritar e, inevitavelmente,
chorei.
- Ah, querido, não exagere! Deixe ele em paz! - Disse minha
mãe.
O meu pai era engraçado. Aliás, todos os adultos o são. Eu
achava tudo divertido, mas um pouco tolo.
Depois que meu pai me deixou sozinho, comecei a pensar naqueles
sons.
O que significavam? Será que era mais uma palhaçada dos
adultos? Eles são incoerentes, variáveis. Não sei porque eles
não estavam sempre sorrindo. Por que eles mudavam tanto?
E, era incrível como eles mudavam quando apareciam pessoas
estranhas. Às vezes, tinha dificuldade de reconhecer meus pais.
Estranhava.
Quem eles eram realmente? Sempre acreditei, firmemente, que eles
eram aqueles que faziam sons e brincavam comigo.
Por que eles eram tão esquisitos, tão mutantes?
Havia cansado de pensar. Estava precisando de companhia. E, se eu
produzisse aqueles sons que meu pai parecia gostar tanto, será
que ele virá aqui?
-Pa...pa...pa!
Fiquei surpreso como ele apareceu tão rápido. Seus olhos eram
pura felicidade.
Isso o faz feliz, que engraçado! Por que será? Não importa, se
o faz feliz, então, é importante para ele.
-Pa...pa...pa...
EU - Hideraldo Montenegro
Ela me olhou desconfiada, indecisa. Tentei de novo, agora
acompanhado de gestos. Mais uma vez ela pediu para eu repetir.
Aquilo estava me desesperando. Comecei a ficar irritado. Ela
percebeu meu nervosismo e fez uma carícia em minha cabeça.
Sempre que ela me tocava eu me acalmava. Aquele toque era como um
tranqüilizante.
Na verdade ela era a única que eu percebia que me olhava como
entendesse minha importância, minha existência.
Muitas vezes olhava as pessoas e as achava estranhas, tensas e em
eterno conflito umas com as outras. Às vezes, sentia pena.
Algumas faziam uma gracinha besta comigo. Percebia o modo que
elas me consideravam. Na verdade, para elas, eu não tinha a
menor importância, não afetava nada. As vidas delas
prosseguiam, iam se encher de fatos, mas sabiam que eu seria o
único que não teria participação neles.
Não me importava quando me deixavam ausente das suas mesquinhez.
De fato, até gostava de estar só, observando, analisando. Elas
não percebiam isto e, para mim, até era bom que assim fosse.
Vivia feliz, sem preocupações que pareciam obstruir a vida da
maioria das pessoas. Minha alegria por estar vivo, por sentir a
vida, uma coisa completa e não repartida em momentos, me fazia
consciente que, de certa forma, era mais beneficiado do que os
outros.
Para o egoísmo da maioria das pessoas, alguém só tinha
importância se pesasse em sua história pessoal, se
contribuísse com algum momento que as fizessem felizes.
Coitadas, não conseguiam ser felizes simplesmente por viver! A
vida estava ali, pulsando em seu viver e não percebiam esta
grandeza e, assim, viviam buscando encontrar o significado dela.
Tentavam construir momentos que justificassem suas vidas, mas
eles eram como bolhas de sabão, rapidamente se desfaziam e
exigiam mais um, mais outro...
Em minha condição, elas viam apenas um antiviver. Como alguém
poderia existir assim? Como alguém poderia ser feliz nascendo
nestas condições?
Era verdade que eu tinha algumas dificuldades. Sabia disto. Mas,
no geral sou feliz. Vivo mais tempo rindo do que o contrário.
Se existia algo que realmente me aborrecia era a falta de
comunicação ou a dificuldade dela. Apesar de minha mãe, às
vezes, não compreender algumas coisas que pedia, ela era a
única que conseguia entrar em meu mundo e me entender.
Sentia o seu amor, pois ele dispensa palavras. Ele era
verdadeiro, calmante, estimulante e a coisa que mais me fazia
sentir vivo. Para mim, era um absurdo algumas pessoas não
conseguirem ver isto. Por isso, eram tão infelizes.
Para uma pessoa, como eu, que nasceu com síndrome de down, a
maioria das pessoas sofriam de cegueira mental.
CÁRCERE
- Hideraldo Montenegro
Fazia muitos anos que estava preso. A barba tinha crescido. Os
filhos tinham crescido. Há muito tempo que não se comunicava
com ninguém.
Nem mesmo a sua esposa, sua amada, fazia mais parte da sua vida.
Não conseguia sonhar, pois, nem mesmo conseguia dormir.
Quando tudo começou? Nem mais se lembrava. Sequer lembrava-se do
motivo.
Os pensamentos eram muitos, talvez demais. Mas, a sua vida tinha
se paralisado de histórias. Só lembranças, vagas, às vezes
desconexas.
Não cobrava compreensão de ninguém, pois, nem mesmo ele já se
compreendia. Agora passava horas nutrindo um único pensamento.
Às vezes, um pensamento passava semanas sendo carregado por ele.
Parava, de vez em quando, com os olhos distantes. Dava impressão
que conseguiríamos ver a imagem de sua esposa impressa neles.
Ficava calmo, suave. Dava um sorriso e dizia o nome dela. Mas,
não demorava muito e já a tinha esquecido novamente.
Pensava em dizer uma coisa e dizia outra. Queria fazer uma coisa
e fazia outra. Ficava desesperado com aquilo. Às vezes,
precisavam de força para controlá-lo.
Tinha sido uma pessoa generosa. Por que aquilo estava acontecendo
com ele?
Um belo dia, quando o sol apareceu, um sorriso se estampou em sua
face. Todo o seu rosto se iluminou.
-Meu Deus - exclamou ele - Como pude passar tanto tempo agarrado
a uma única idéia?!
1+1*
- Hideraldo Montenegro
Era uma vez um homem e um homem. Não, não há nenhum engano.
Eram dois homens mesmo. Eles viviam num planeta distante.
Só que um deles era tão grande, tão grande e, o outro, tão
pequeno, tão pequeno, que nenhum deles, apesar de viverem
lado-a-lado, sabiam da existência do outro.
Assim, embora vivendo no mesmo mundo, estavam solitários. Em
virtude desta forma de viver, eles, diríamos, tinham, de vez em
quando, algumas inquietações filosóficas. Pensavam: seria bom
que tivesse alguém aqui para compartilhar comigo deste mundo.
Poderíamos trocar idéias, informações, nos divertir, etc.
O pequeno, por exemplo, em algum lugar distante, encontrou um de
sua altura que afirmava acreditar que existiam outros seres
diferentes deles. Mas o pequeno, em seu firme ceticismo, não
acreditava em tal bobagem.
Ora, ele nunca, jamais, em tempo algum viu outra criatura senão
as do seu tamanho. E, isso, quando viajava para lugares
distantes!
Ele já estava conformado. Sabia que iria passar o resto de sua
existência naquele lugar sozinho mesmo. Fazer o quê?
Agora - dizia ele - vem cá, como alguém pode acreditar que
existam outros seres diferentes? Ele não era bobo. Não iria
acreditar numa besteira dessa.
Aquele outro pequeno, que ele conheceu numa viagem a um outro
lugar, só podia ser um lunático, um fantasioso. Ora, onde já
se viu...!
O mais engraçado, e talvez vocês não acreditem, é que o
grandão pensava também a mesma coisa.
É lógico que vocês devem estar pensando que esses dois eram
uns tolos. Puro engano. Eles eram muitos espertos, inteligentes e
sensíveis.
Como assim, perguntarão vocês? Os caras viviam lado-a-lado e
sequer percebiam a presença um do outro, como podiam ser
espertos?!
Ah, mas nada fica oculto. E foi isso que aconteceu. Embora, tenha
passado muito tempo para eles filosofarem, questionarem e, enfim,
só aumentarem as suas dúvidas, aconteceu um fato que mudou toda
a estória.
Um belo dia, uma lupa que o grandão usava, caiu no chão e
quebrou. Em mil pedaços esta lupa se transformou. Para o
pequenininho, estes pedaços de lente eram como estrelas e o
barulho de sua queda foi tão alto, mas tão alto que o
pequenininho não escutou, pois, como todos sabem, um ultra-som -
que era o caso para o baixinho - não é audível.
O fato é que o grandão, ao ver sua lupa em mil pedaços, se
agachou para apanhar os cacos, como se pudesse depois, num
reflexo de ingenuidade, juntá-los novamente.
O grandão (quer dizer, grandão para o pequenininho) tomou um
susto quando foi pegar um dos cacos e notou que alguma coisa se
mexia. Claro, ele percebeu isso através da lente.
Era alguma coisa minúscula. Ele aproximou a lente dos olhos e
tentou ver o que era aquilo. Ah, quase ele cai para trás ao
perceber que aquela coisa era um homem igualzinho a ele, só que
infinitamente menor!
Caramba! - disse ele - essa coisinha pequena está falando! A
conclusão do grandão foi que, quem fala, pensa. Não sei se
concordo com ele, pois, conheço muita gente daqui que fala sem
pensar.
Bom, o grandão improvisou um ampliador de sons. Não importa
como ele conseguiu isso. O importante é que o fez. Mas, ele
pensou também em fazer uma lente invertida para que aquele
homenzinho o visse também. E, assim, foi feito o contato entre
eles.
O pequenininho tomou um susto danado. Temeu logo que aquela coisa
monstruosa o devorasse. Enfim, ele pensava igualzinho a gente
diante destas situações novas. Também não era para menos.
Imaginem vocês se depararem com uma coisa enorme,
incomensurável?! Também não iriam tremer nas bases até se
acostumarem?
Bom, depois de tudo se acalmar e ter havido explicações de lá
e de cá, o pequenininho exclamou: como você é tão grande! O
grandão disse a mesma coisa, só que o contrário: como você é
pequenininho! E, assim, foram apresentados.
Para o grandão, o pequenininho não era normal, era
pequenininho. A mesma coisa pensava o pequenininho do grandão.
Mas, em pouco tempo eles estavam trocando idéias, contando
piadas (claro, de preferência sobre a condição do outro) e
filosofando. No final, eles chegaram à mesma conclusão.
Disseram eles: pôxa, nossas consciências são iguais! Não há,
apesar dos nossos tamanhos, diferenças entre nós!
Mas, é óbvio que isso vocês já tinham adivinhado que eles iam
concluir, não é?
MUITO ALÉM... - Lenine de Carvalho
Meu amigo chama-se Peter Hammer... É um cuteleiro, ou seja, fabrica facas, adagas, punhais, espadas, tudo artesanalmente. É um verdadeiro artista, vive pesquisando sobre a fabricação de armas brancas antigas, técnicas, procedimentos, etc...Precisava de um forno especial que desse l.200 graus centígrados de temperatura para poder elaborar a têmpera das lâminas, como não tinha dinheiro para comprá-lo, fabricou um com suas mãos em sua casa. Meu amigo Peter também é um filósofo, apesar da pouca idade, 30 e poucos anos. Somos amigos há vários anos e eu sou um admirador dele e de seu trabalho. Tempos atrás, fabricou um Kataná, uma espada samurai japonesa, de acordo com as técnicas e materiais usados há séculos atrás. Conseguiu enviar seu trabalho para o Japão, assombrando a todos os especialistas que lá examinaram sua espada, ganhou menções honrosas, prêmios e é o único homem no Brasil autorizado pelo governo japonês a afiar Katanás verdadeiros e históricos. Esse meu amigo comentou-me um dia que era espírita e fazia parte de um pequeno grupo de pessoas que dedicavam-se a estudar a nível científico a doutrina espírita e suas manifestações a nível material e cósmico... Sempre encarei esse tipo de coisa com muito respeito, mas nunca quis aprofundar-me no assunto por ter um certo receio de acabar me tornando refém de alguma maneira de uma doutrina ou filosofia que me convencesse ou arrebatasse... Medo enfim? Talvez... Uma noite, eu estava na oficina na casa de meu amigo, vendo-o trabalhar e conversando sobre armas quando ele com a maior naturalidade do mundo me disse que através de seus contatos com o mundo paralelo e espiritual ele havia recebido a incumbência de dar-me um recado.
- Recado de quem?
- Há entidades que querem transmitir uma mensagem para você.
- Que entidades?
- Seres espirituais, desencarnados, que pertencem a outra dimensão de espaço-tempo.
- E o que querem me dizer??
- Não tenho a mínima idéia, apenas me pediram para convidá-lo a comparecer a uma das reuniões do nosso grupo, agora compete a você decidir se quer ir ou não, de minha parte o recado está dado e o convite feito.
- Quando será a próxima reunião de vocês?
- Hoje à noite, daqui a uma hora, quer vir?
- Sim, quero. Vou.
Era uma pequena sala, uma mesa com uma toalha branca e uma fraca luz iluminando o ambiente. Uma senhora gorda, de certa idade, parecia presidir os trabalhos, ou sessão, ou estudos, ou o nome que tivesse aquilo. Havia ainda uma moça bastante jovem e mais dois senhores de meia idade. Percebi ou senti que da senhora gorda emanava uma espécie de paz, harmonia, tranqüilidade, calma interior que transmitia-se ao ambiente. Apresentações feitas, a senhora me explicou que eles comunicavam-se com os espíritos num nível muito alto, de vibrações muito elevadas, recebiam e transmitiam mensagens e que alguns espíritos desejavam transmitir algo para mim. Disse também, que uma vez estabelecido o contato, apenas eu receberia a mensagem e que eu poderia ficar à vontade para comentar ou não com eles o que me havia sido dito pelas entidades, caso eu necessitasse de alguma ajuda ou explicação para entender algo, eles estavam lá para ajudar, mas não tinham nenhuma curiosidade vulgar de saber o que ou qual tinha sido a mensagem. Isso me foi simpático. A senhora pediu então que nos déssemos as mãos e fechássemos os olhos. Eu estava me sentindo um tanto constrangido com a situação, mas, acho que além da curiosidade digamos, científica e filosófica sobre o assunto, queria também agradar ao meu amigo Peter, por isso tinha aceito o convite. Pediu-me então a senhora que eu tentasse visualizar uma grande tela completamente em branco, disse-me que isso era algo bastante difícil de se conseguir, pois as imagens do cotidiano iriam se projetar sobre a tela e eu deveria tentar afastá-las, deixando a tela em branco o maior tempo que pudesse. Realmente foi difícil no princípio, mas acabei conseguindo por não sei quanto tempo imaginar uma tela imensa, branca e completamente vazia... Então a sala desapareceu... as pessoas, tudo... Havia uma enorme planície amarela... milhares de guerreiros a cavalo, armados com lanças, espadas, arcos e flechas, pequenos machados, escudos, alguns de metal outros de couro curtido em várias camadas... Todos com feições orientais... como se fossem mongóis... Eu me vi então montado num cavalo e alguém que me parecia ser um dos chefes me pedia instruções num idioma completamente estranho mas que eu compreendia perfeitamente. Me dei conta então que eu estava no comando de todos aqueles guerreiros e que íamos combater não sei a quem nem porque nem onde, a 3 dias de viagem a cavalo... Distribuí ordens e instruções e cavalguei até uma estranha construção branca, que parecia uma espécie de templo... Em frente ao templo, a moça esguia, com longos cabelos negros, um rosto místico, os olhos oblíquos, vestida com uma túnica branca até os pés e um cinto amarelo que parecia ser de ouro... Desci do cavalo, abracei-a e disse-lhe que logo estaria de volta, que o problema seria resolvido rapidamente, pois nosso exército era muito poderoso e bem armado, dentro em breve eu estaria de volta para continuarmos a viver nosso amor que era tão belo... A moça de cabelos negros e longos não disse nada, apenas de seus olhos corriam silenciosas lágrimas... como que em premonitória despedida... Beijo-a ternamente, pego seu rosto entre minhas mãos e beijo o pequeno sinal marrom que ela tem na têmpora esquerda... O exército todo a cavalo, movimentando-se a meio galope até chegar onde seria o campo de batalha. Posições tomadas e dispostas, cabia a mim dar a ordem de ataque... Ninguém havia percebido o batedor avançado, perfeitamente camuflado com secas folhagens no terreno irregular... Do alto do cavalo, empunho uma brilhante espada, mas antes de dar a ordem de ataque, volto o rosto para onde havia ficado a moça de cabelos longos e negros, como que a dizer-lhe mentalmente o quanto a amava e que logo estaria de volta para seus braços. Nesse momento, a flecha de madeira, com ponta negra de ferro, penetrou-me por baixo do queixo saindo um pouco acima da nuca... me vi lentamente caindo do cavalo... Então de repente, a sala volta a existir! A senhora, meu amigo Peter, as outras pessoas ao redor da mesa... Estou muito abalado... Sinto um estranho gosto de sangue na boca... Ninguém me pergunta nada. Disse-lhes então que havia recebido a mensagem, apenas isso, nada mais. Novamente não me perguntaram nada. Despedimo-nos e lhes agradeço por tudo. Na casa de Peter, conto-lhe bastante emocionado e algo assustado o que se havia passado. Ele então me diz que de vidas passadas trazemos algumas habilidades, dons, virtudes e defeitos para a vida atual.
- Veja, na época que você descreveu os combates eram corpo a corpo e você agora apesar de não ser mais tão jovem, continua praticando artes marciais, apesar de ser civil, você tem afinidade e familiaridade com armas brancas e de fogo. Naquela época, provavelmente cada tribo falava um dialeto diferente e um comandante ou chefe forçosamente teria de falar mais de um idioma ou dialeto para poder se comunicar com seus comandados e você hoje fala alguns idiomas. Percebe? Tudo a ver...
Já é quase madrugada, ainda um tanto abalado pelo que havia visto, sentido e vivido volto para casa. Assim que abro a porta, minha querida Gueixa vem me abraçar cheia de amor e carinho... Acaricio os cabelos longos e negros... olho dentro de seus olhos oblíquos, profundos e místicos... Pego seu rosto entre minhas mãos e beijo ternamente o pequeno sinal marrom, em sua têmpora esquerda...
RECORTES DA REALIDADE - Léo Saballa
Um violento estrondo arrancou-me literalmente da cama naquela manhã de domingo. Sem saber ao certo o que estava acontecendo e com o cérebro ainda desconcertado pela interrupção do sono profundo, imaginei algumas tragédias: bomba atômica, queda de avião, atentado terrorista, terremoto, derrame, infarto, entre outras ocorrências menos possíveis. Alguns segundos depois outro relâmpago iluminou o quarto. O barulho do vento arremessando a chuva na vidraça não deixou a menor dúvida que o mundo estava para se acabar em um novo dilúvio, desta vez acompanhado de ventos e raios.
O rádio-relógio enlouquecido com a descarga elétrica piscava sinais luminosos incompreensíveis. No velho relógio de pulso, em cima da escrivaninha, forcei a vista e descobri pela posição dos ponteiros que já eram oito e meia, embora a rua permanecesse na escuridão da madrugada. Puxei alguns centímetros da cortina e mesmo sem óculos olhei para fora, esfregando com a manga do pijama o vidro embaçado. Se a minha avó fosse viva diria "é chuva que Deus manda".
Desde criança fico tenso quando desaba algum temporal, principalmente acompanhado de raios. Penso sempre que vou ser atingido por um. Quanto mais tento ficar calmo, mais me aproximo do pânico. No fundo, acho que vou morrer no meio de um temporal, queimado por um raio. Os mais idosos costumam dizer que a pessoa atingida por raio deve ser rapidamente enterrada apenas com a cabeça para fora. Acreditam que a terra absorve a energia acumulada no corpo do infeliz, evitando que ele morra. Não sei porque, mas sempre que vejo um temporal no horizonte imagino meu corpo semicarbonizado, todo sujo de lama, dando choque nas minhocas.
O corpo ressacado pedia mais cama, um sal de frutas e dois analgésicos. Havia dormido apenas quatro horas naquela noite. Jurei que nunca mais sairia com o Ademar para beber cerveja. Ele só pára depois de estar completamente bêbado. Sinceramente, gostaria de dormir o dia inteiro. Mas, o medo que tinha raízes infantis mantinha meus olhos bem abertos, a garganta seca e os sentidos ligados. Se fosse só a chuva e o vento, tudo bem. O problema era a porra do raio que me deixava apavorado cada vez que irrompia um clarão, seguido de um estalo tenebroso. Saí da cama com muito esforço, acendi a luz do quarto e cobri o imenso espelho com um lençol. Ouvi falar que o aço do espelho atrai o raio. Seria apenas mais uma superstição dessa gente que acredita em tudo o que é bobagem? Na dúvida, tratei de me proteger, nem que fosse apenas no aspecto psicológico.
De repente, uma faísca produziu um som ensurdecedor e quase fez o meu coração parar. A luz apagou e o vento uivava na janela zombando do meu medo. O intervalo entre um raio e outro estava cada vez menor. Puxei o lençol sobre a cabeça para não ver os clarões e soltei a voz cantando o Parabéns pra você, única letra de música que eu conseguia lembrar naquele momento. Permaneci cerca de 20 minutos nesta situação ridícula. Sorte minha, pensei, moro sozinho e ninguém vai ficar sabendo desse vexame, a não ser que eu mesmo revele essa fraqueza.
Quando ergui a cabeça para fora do lençol senti um grande alívio. Não havia mais chuva nem vento, muito menos a porra do raio. Ao contrário do tempo tenebroso que mexeu com os meus medos mais escondidos, em poucos minutos o dia estava lindo e ensolarado. O espelho coberto por um lençol era o único traço da tempestade pavorosa. O corpo e a cabeça ainda doíam. Mas, o importante é que eu sobrevivera. Sentia-me um soldado voltando da guerra, renascido e disposto a curtir o domingo. Não foi dessa vez, pensei aliviado, que as forças da natureza levariam a minha alma para as profundezas do inferno nem o meu corpo para uma cova lamacenta perto das minhocas.
A princípio, achei engraçado o jornal, cheio de símbolos, caracteres estranhos, letras que eu não conseguia decifrar, que não formavam palavras, embora as fotos fossem de boa qualidade. Pensei em uma edição especial do jornal, destas lançadas para causar polêmica e atiçar a curiosidade dos leitores. As jogadas de marketing são cada vez mais ousadas. Sabe-se lá o que o jornal esperava com aquilo. Na verdade, para mim, parecia um jornal chinês. No entanto, a logomarca, a diagramação, os anúncios e as pessoas fotografadas eram todas conhecidas. Era o jornal que eu lia todos os dias. A grande diferença é que eu não entendia nada do que estava escrito nele. Nenhuma letra ou número reconhecível. Poderia ser problema de impressão, loucura do computador, sei lá!
Como faço todos os dias, liguei o rádio para ouvir as notícias durante o banho. Não consegui entender nada do que o locutor falava, embora a voz fosse familiar. Desliguei o chuveiro, aumentei o volume do rádio, mas mesmo assim ele continuava falando uma língua desconhecida. Mudei de estação e as músicas pareciam versões em outro idioma. Quer dizer, o aparelho era o mesmo, a melodia a mesma, o arranjo o mesmo, o cantor e a cantora os mesmos, só a pronúncia era diferente.
O Raul Seixas cantava Eu nasci há 10 mil anos atrás. Não havia nenhuma dúvida que a voz era do Raul. Só que parecia uma versão hebraica. Nada a ver com a língua portuguesa, nem se parecia com qualquer outra que eu já tivesse ouvido. Depois veio a voz inconfundível da Maria Bethânia interpretando Emoções numa entonação que se aproximava da pronúncia francesa, mas não era. O som gutural agredia os ouvidos. Até os comerciais estavam sendo anunciados de maneira estranha. Não conseguia compreender nenhuma palavra. Num primeiro momento pensei que o raio tivesse alterado a freqüência do rádio para ondas curtas captando transmissão em japonês, chinês, russo, basco ou outro idioma mais complicado. Também não descartei a possibilidade dos meus ouvidos serem vítimas de algum distúrbio raro produzindo uma espécie de misturador de vozes, igual ao que é instalado nos telefones para evitar espionagem.
Quando cheguei à rua, ainda atordoado pela situação confusa, tive a certeza de que alguma coisa terrível estava acontecendo comigo. Se havia esperança de uma explicação lógica para aquelas letras no jornal e o som estranho transmitido pelo rádio, agora não restava mais nenhuma dúvida. Eu estava completamente possuído pela loucura ou o mundo inteiro conspirava contra mim como se fosse uma pegadinha destes programas dominicais de televisão. Disfarçadamente procurei alguma câmera escondida. Se houvesse, estaria muito bem camuflada. Bobagem, quem se importaria em montar toda essa produção apenas para fazer de bobo alguém insignificante como eu?
A padaria em frente ao prédio onde diariamente compro pão nos últimos 20 anos, estava lá, como sempre esteve. A mesma fachada, a mesma cor, os mesmos funcionários, o mesmo aroma de pão. Só que o nome não era mais "Oriente". A placa, a mesma de sempre, agora servia de suporte para alguns símbolos indecifráveis. A tabela anunciando os preços dos pães permanecia no mesmo lugar, mas muito distante da minha compreensão. Não havia números. Apenas desenhos e caracteres confusos, iguais aos que estavam no jornal parecendo minhocas enroladas em diversos formatos e tamanhos. Observei também alguns traços que lembravam minúsculos pentes com dezenas de dentes.
Bastou uma rápida olhada nas placas penduradas nas marquises das lojas para constatar que quase nada fazia sentido. Não conseguia identificar nenhuma letra ou número em exposição. O outdoor de um refrigerante mostrava-se inconfundível pela garrafa, logomarca, personagens e imagens que eu já havia assistido repetidas vezes na televisão. Apenas os números e as letras estavam alterados. No seu lugar minhocas enroladas e pentes de todos os tamanhos. As placas dos automóveis também estavam repletas de minhoquinhas e pentes que lembravam confusos códigos de barras.
Na banca de jornais, identifiquei publicações conhecidas como a Veja, Caras, Época, Isto É, entre outras revistas de circulação nacional. Na capa, rostos de personagens da vida brasileira: o presidente Fernando Henrique, a atriz Vera Fischer, o piloto Rubinho Barrichello, todos famosos. Mas não conseguia entender os textos, nem o significado daquele amontoado de símbolos. O mesmo ocorria com os jornais Folha de São Paulo, O Globo, Estadão e Jornal do Brasil. Todos eram familiares para mim, mas pareciam editados em chinês. Nenhuma frase, nenhum título, nenhuma letra, nenhum número. Nada que eu pudesse identificar para acabar com o meu desespero. Engraçado, mas as imagens estavam corretas.
Abordei ansioso o vendedor e ouvi apenas sons incompreensíveis. Quanto mais eu tentava me comunicar, mais ele demonstrava impaciência. Através de gestos, dizia que não entendia nada do que eu falava. Diante da minha insistência, o homem chegou a ser ríspido e mandou-me embora. Não entendi o que ele disse, mas as suas mãos deixaram claro que eu deveria me arrancar urgentemente daquele local antes que ele resolvesse tomar uma providência mais enérgica. As pessoas, alheias ao meu drama, levavam a sua vidinha normalmente.
Não havia nada de diferente na fisionomia nem no comportamento delas. A única coisa que eu não entendia era o modo como essa gente se comunicava. Isso é que me deixava intrigado. Muitos sentados nos bancos da praça liam atentamente aqueles jornais truncados. Não sei como conseguiam. Outros iam para o trabalho, alguns procuravam trabalho, mas a maioria queria mesmo não fazer nada nesta manhã preguiçosa de domingo.
Eu estava no meu país, no meu bairro, na rua onde moro e me sentia como um estrangeiro, sem qualquer condição de me comunicar. Ninguém mais me conhecia. Passei a minha vida inteira nessa merda de bairro e agora sou tratado como um cachorro vira-lata. Voltei à padaria e pedi um pacote de leite e dois pães. A balconista, pessoa muito gentil, que todos os dias me atendia, olhou como se nunca tivesse me visto e com ar de curiosidade e desconfiança rosnou alguma coisa que mais parecia o som de uma fita reproduzida detrás para frente. Novamente a tentativa de me comunicar não deu resultado. Alguns funcionários da padaria fizeram um pequeno grupo para me observar.
Senti-me um animal raro no zoológico. Notei que riam do meu modo de falar. Apontavam para o ouvido e abriam os braços como se quisessem dizer que não estavam entendendo absolutamente nada. Mas deixavam claro que o meu sistema de comunicação era muito engraçado. Riam muito de mim. Havia me tornado o bobo da corte.
Observei a conversação de algumas pessoas e não consegui capturar nenhuma palavra. Pelo tom, sabia quando estavam discutindo ou sendo gentis. Um motorista xingou o outro com um grunhido animalesco. Deveria ser um palavrão, mas nunca tinha ouvido nada parecido. O meu cérebro não conseguia processar nenhuma palavra.
Abordei um policial para tentar explicar o que estava acontecendo e por muito pouco ele não me prendeu. Certamente pensou que eu estava fazendo alguma gozação. Com o dedo em riste advertiu-me com bastante irritação, embora eu nada entendesse. Depois pousou a mão de maneira ameaçadora sobre o revólver que estava na sua cintura, como a dizer: se você continuar com essa palhaçada eu te mato!
Voltei à padaria, apontei para o pão e mostrei dois dedos. O mesmo processo usei para comprar o leite. Na hora de pagar, mais uma surpresa: o meu dinheiro estava diferente. Quer dizer, era a nossa moeda brasileira, o Real. Mas... ao mesmo tempo não era. Mais ou menos assim: a nota de um real era da mesma cor e do mesmo tamanho. A qualidade do papel e a impressão se mantinham. A figura do beija-flor era igual. O poder de compra o mesmo. A diferença estava nas letras e nos números. Tudo fora substituído pelas minhocas e pentes. Conferi outras notas de outros valores e todas estavam alteradas. Números e letras desapareceram da minha carteira de identidade. Apenas a foto permaneceu a mesma. Os meus cartões de crédito também estavam modificados.
Manuseei o meu talão de cheque e assim como o dinheiro ele também estava cheio de minhocas e pentes. Deduzi que poderia ser preso se tentasse preencher algum cheque utilizando a minha letra, como fiz a minha vida inteira. Certamente ninguém iria entender os meus garranchos, muito menos a minha assinatura. Nem eu estava entendendo mais nada. Afinal, o que estaria acontecendo? Teria morrido? Seria isso uma reação da morte? Alucinação de uma droga poderosa? Alguém me hipnotizou sem que eu percebesse? Acidente cerebral? Efeito da cerveja? Pesadelo? Ou simplesmente loucura mesmo, dessas que joga a gente num hospício com camisa de força e tudo, sem explicação?
No fundo, alguma coisa me dizia que essa ocorrência muito louca tinha relação direta com a tempestade da manhã. Pode ser que a porra do raio me atingiu e provocou um curto circuito no cérebro? Uma coisa eu tinha certeza: não estava dormindo. Tinha consciência disso. Estava confuso, mas lúcido. Por mais bizarra que fosse a situação eu estava vivendo uma dura, louca e confusa realidade. Precisava descobrir a causa de tudo isso.
Saí da padaria disposto a preparar o meu café da manhã e pensar com mais calma nesta insólita armadilha mental. Os meus olhos buscavam atentamente uma identificação familiar nas placas, etiquetas ou embalagens. Nada! Nada além de minhocas e pentes. Na parede do elevador havia um desenho azul-marinho com três símbolos semelhantes à letra "s". No espaço onde deveria constar o telefone da empresa encarregada da manutenção, somente rabiscos indecifráveis.
Em casa, abri com desespero todas as gavetas que encontrei em busca de alguma letra, de algum número ou de alguma pista que me conduzisse novamente ao mundo normal. A papelada estava toda lá: contas de luz, água, telefone, carnês de lojas e até a minha certidão de nascimento. Havia vários recortes de realidade. Mas, tudo impresso com minhoquinhas e pentes de dentes escuros, arreganhados, como se estivessem gargalhando da minha tortura interminável. O meu sistema nervoso já estava completamente violentado. Fui tomado por um forte enjôo, uma dor de cabeça insuportável e comecei a suar frio. Deitei no sofá esperando a indisposição passar e fiquei algum tempo observando os porta-retratos na estante. As fotos não haviam sofrido nenhuma alteração. Os amigos continuavam existindo, alegres e sorridentes neste meu mundo desprovido de números, vozes e palavras.
Resolvi telefonar para um amigo. Os números que me acostumei a ver no teclado do telefone não existiam mais. Memorizei a posição das teclas e disquei automaticamente. Do outro lado da linha reconheci a voz do Ademar. Sei que era ele. Emitiu apenas alguns grunhidos. Como eu não respondi, ele desligou o telefone.
Então decidi que iria visitá-lo naquele mesmo instante. Sabia que ele estava em casa. Afinal, era meu amigo de infância e poderia me ajudar. Talvez conseguisse me comunicar através de gestos. A verdade é que eu precisava ver um rosto conhecido, conversar com alguém senão iria enlouquecer. Se bem que, não tinha mais certeza se a loucura já havia se estabelecido definitivamente.
O número do apartamento deixou de ser 202 e transformou-se apenas em uma cobrinha inclinada. A minha referência para localizar o apartamento era o segundo andar, no final do corredor. O som da campainha era conhecido. Já tinha estado neste prédio centenas de vezes, mas agora estava ansioso para saber como seria recebido. Esperei alguns segundos intermináveis. A porta se abriu e a figura simpática do Ademar apareceu, vestindo pijama, naquela manhã de domingo.
- Meu amigo, estou precisando da sua ajuda. Algo terrível aconteceu comigo esta manhã. Acho que estou ficando louco. Eu não consigo entender o que as pessoas falam comigo e nem as pessoas me compreendem. Não consigo ler mais nada. Estou me sentindo surdo, mudo e analfabeto. Ontem à noite eu e você estávamos num barzinho, tomando cerveja, falando de mulheres, de futebol, filosofando sobre o sentido da vida. Você está entendendo o que eu quero dizer? Aconteceu alguma coisa comigo ontem? Por acaso bati com a cabeça? Você está lembrado de mim? Diga o meu nome! Fale alguma coisa que eu possa entender! Explique o que aconteceu! Por favor...
No mesmo instante em que fazia esses apelos como rajadas de metralhadora, não pude conter o choro. O meu estado emocional simplesmente não existia mais. O semblante do Ademar ia se modificando à medida em que o meu desespero aumentava. Primeiro ficou sério e foi se afastando de mim, como se estivesse sentindo medo.
Ele gritou enfurecido quando tentei colocar a mão no seu ombro. mediu-me de cima a baixo com desconfiança e produzindo sons incompreensíveis, ameaçou-me com um taco de beisebol. Fiquei sem alternativa. Tive de me retirar para não ser espancado pelo meu melhor amigo. Se é que era ele mesmo. Em nada se parecia com o amigo gentil e solidário, companheiro de primeira hora em todas as festas, sempre disposto a ajudar. Acho que não me reconheceu. Tratou-me como um estranho, uma pessoa inconveniente. Fiquei chocado com a recepção.
Percebi que diante das circunstâncias não poderia sair por aí, abordando as pessoas, tentando me comunicar verbalmente, pois as reações delas não seriam nada amistosas. O pior é que estavam se tornando perigosas. Retornei ao meu apartamento e fiquei pensando se havia alguma saída por onde pudesse começar a reconstruir seja lá o que tinha trincado, quebrado, explodido em mim ou em todas as outras pessoas que cruzei naquela manhã. Retirei o lençol que cobria o espelho e vi minha imagem refletida. Apesar das olheiras profundas e de algumas rugas que surgiram nas últimas horas, eu ainda tinha a mesma cara. Então, por que o meu amigo tratou-me daquele jeito? É possível que a mudança tenha ocorrido em toda a humanidade e por algum motivo me deixaram de fora.
A cabeça doía e quanto mais pensava nesse enigma mais me convencia que era provação divina ou autopunição. Afinal, muitas vezes fugi do diálogo por simples questão de comodidade. Sabia ouvir, sim, mas só quando tinha interesse no interlocutor e nas vantagens que ele pudesse me oferecer. Os problemas dos outros nunca me tocaram. A dor alheia não me dizia respeito. O olhar suplicante de alguém na rua não era problema meu. A minha impaciência com as pessoas pouco articuladas, me obrigava a criar atalhos e a passar a tesoura em conversas desnecessárias e longas. Às vezes, magoava cruelmente a sensibilidade de quem estava precisando de mim. Na maioria das vezes fingia ouvir.
Sempre pensei que as palavras deveriam ser enxutas, econômicas, de modo a não se vulgarizarem. Não queria ter o meu tempo tomado por conversas inúteis. Agora, estou desesperado procurando ouvir nem que seja um insulto, um não, para me fazer sentir vivo e dono das minhas faculdades mentais. Estou implorando que alguém pronuncie o meu nome ou peça um favor. Queria muito, neste momento, que uma criança ocupasse todo o meu tempo de folga para ler a sua redação, com todas as fantasias infantis. Iria saborear palavra por palavra. Em poucas horas aprendi que nada faz sentido se não houver interação com as criaturas que nos cercam.
É a chave daquilo que chamamos de felicidade. Pensando bem, descobri o que eu já sabia, mas não queria aceitar: que o mundo não depende de mim para continuar existindo. As pessoas nem fazem muita questão da minha presença. Às vezes sou um estorvo. A realidade hoje, é que ninguém sabe nem está preocupado em saber que eu existo. Agora, aqui, sinto-me como um animal enjaulado neste pequeno apartamento, escondendo-me do mundo e das pessoas e buscando uma migalha de compreensão. Não sei ao certo se enlouqueci, se estou morrendo ou renascendo. É até provável que eu nunca tenha nascido. Também acho que nunca vivi. A certeza disso tudo é que nunca mais serei o mesmo. Necessito profundamente fazer parte de novo daquela realidade de convivência, que escorreu por entre os meus dedos. Preciso participar desta cadeia de dependência que move o mundo.
Com tantos pensamentos fervilhando, senti o corpo enfraquecendo e suavemente comecei a adormecer. Percebi que já era noite. O sono foi chegando assim, naturalmente como o efeito de uma anestesia geral. Uma sensação de bem estar indescritível se apoderou de mim. Jamais havia experimentado esta tranqüilidade, este aconchego interno. Aos poucos alcancei a máxima profundidade do sono mais reconfortante de toda a minha vida.
De repente, um violento estrondo interrompeu este ritual quase sagrado. Era a porra de um raio anunciando mais uma tempestade de verão. O meu corpo estremeceu com o clarão e com o estalo ensurdecedor. Ao mesmo tempo, o telefone tocou. Ignorando as ameaças elétricas que vinham do céu, corri para atender o aparelho. Do outro lado da linha uma voz familiar:
- E aí, cara? É o Ademar. Por onde você andou? Tentei falar com você o domingo inteiro...
A FACE DO SONHO - Lira Vargas
Sandra, uma linda gaúcha, de grande talento artístico, iniciava no teatro, surpreendendo a todos, mas teve uma gravidez inesperada aos quinze anos, nasceu Luiza. Sua vida foi um transtorno, pois dividia seu sonho com uma criança indesejada. Os anos foram passando, o sucesso fazendo parte da vida de Sandra, que se projetava há cada espetáculo no teatro do Rio de Janeiro.
Luiza foi crescendo, muito diferente da mãe, chegava a ser considerada, feia, e pior, rejeitada pela mãe famosa. Sandra omitia a existência de Luiza, quando algum repórter tocava no assunto, Sandra desviava com um sorriso melancólico.
O tempo foi passando, Sandra estava no auge da carreira aos trinta anos, e Luiza em sua vida insignificante com quinze anos. Luiza admirava a beleza de sua mãe, quando a mesma estava se arrumando para sair, Luiza a admirava, e em sua singeleza uma vez perguntou a Sandra como era ser bonita e famosa. Sandra desconversava e até a agredia com palavras rude. Luiza, mesmo não sendo bonita, tinha uma simpatia e singeleza que superavam a falta de beleza. Colecionava as reportagens que falavam de Sandra, era sua fã, mas silenciosa, pois Sandra nem comentava sobre sua vida com Luiza.
Na mansão, Sandra adaptara uma grande sala de teatro para seus ensaios. Luiza ficava fascinada quando tinha ensaios. Nessa sala, havia uma saída de ar condicionado e ao lado tinha uma pequena varanda que dava para um imenso jardim. Luiza descobrira uma pequena abertura na passagem do ar, e dali assistia solitários os ensaios, chegava a aplaudir sem som sua linda mãe diante dos diretores e produtores dos espetáculos. Luiza percebeu que Sandra iria fazer um novo espetáculo, pois notara telefonemas e as preocupações normais quando Sandra ia começar um novo espetáculo. E em seus pensamentos, Luiza torcia e sabia que seria um grande sucesso, e todas as noites eles ficava a espera desse novo ensaio que para sua ansiedade demorava muito. E na escola, com sua única amiga Lurdes, ela comentava toda sua ansiedade sob o olhar de compaixão de sua amiga. Que não entendia como Luiza podia amar e admirar tanto uma mãe que a negava. Às vezes Lurdes perguntava a Luiza se ela seguiria a carreira de sua mãe, e em gesto de timidez e tristeza, Luiza respondia que seria impossível, pois não era bonita como sua mãe.
Numa manhã, Luiza procurou Sandra para falar algo sobre o colégio, e notara que ela estava abrindo um envelope com um caderno, Luiza deu um sorriso de felicidade, finalmente o script chegara, e Sandra, em semblante sério, abaixou o material e nem permitiu que Luiza continuasse a falar, resmungou em tom rude que estava ocupada, Luiza humildemente, compreendeu e pediu desculpas, saindo feliz, como seria esse novo espetáculo, perguntava em pensamento e com sorriso feliz.
Foi numa noite de inverno, um diretor que Luiza nunca tinha visto, chegara com uma equipe para uma reunião com Sandra. Luiza estava jantando e Sandra, pediu licença e foi atender o pessoal que chegara na sala de ensaios. Luiza sorriu, e rapidamente foi para seu esconderijo assistir os primeiros ensaios daquele misterioso espetáculo. Ao chegar no esconderijo, Luiza ficou fascinada pela quantidade de pessoas, imaginou que deveria ser um espetáculo muito grande, pois era bem diferente das outras, e em sua singeleza, Luiza bateu palmas sem som e pensou que esse espetáculo, com certeza, iria para o exterior.
E começou o ensaio. O diretor acompanhado de sua esposa tratava Sandra com admiração, sua voz era meiga e segura, Luiza deixou-se envolver pôr aquela voz, parecia um anjo, ela tentava vê-lo, mas no ângulo que ele ficara, era impossível. Luiza tentava, mas era em vão. O diretor lia o script e informava que o sapateado tinha que ser perfeito, pois seria uma das atrações do espetáculo. Um professor espanhol ensinava os primeiros passos a Sandra. Luiza com o rosto colado na parede deu um sorriso e dizia que seria muito fácil para sua mãe, e num impulso, Luiza imitava os passos do sapateado. Seu entusiasmo era tanto que Sandra tentava acompanhar o professor, e de repente parou do outro lado, Luiza continuara. Foi um silêncio total. O diretor Willis, perguntou quem fizera aquele som. Sandra pigarreou, e desviou a atenção de todos, preocupada, pois sabia que só podia ser a Luiza. Ao terminar o ensaio, quando todos foram embora, Sandra foi ao quarto de Luiza e a repreendeu, dizendo, que nunca mais repetisse. Luiza ficou surpresa, pois então, Sandra sabia de seu esconderijo. Na manhã seguinte, quando tomava café, percebeu que a copeira Seleste tinha um sapato parecido com o que sua mãe usara no ensaio, e em gesto de menina, pediu que lhe emprestasse o sapato, Seleste sorrindo, disse que não tinha problema, e quando Sandra saiu, Luiza foi com a copeira tentar os passos no teatro de sua mãe.
N a escola, Luiza treinava os passos sem som na carteira da sala para não ser chamada atenção, e no intervalo, chamava Lurdes para ajudá-la, Lurdes ria de Luiza, que insistia com seriedade que observasse se estava certo.
E nos outros ensaios, Luiza não resistia e ia para seu esconderijo. E outra vez, fez os passos do sapateado. E para sua surpresa, Sandra já sapateava, mas sem a aprovação total de Willis, mas ainda faltavam alguns meses para a estréia.
Naquela noite, foi movimentada para Luiza, pois percebera que além do sapateado, tinha uma música linda para acompanhar. Uma professora de canto ensaiava Sandra. Luiza do outro lado prestava atenção na melodia e saia correndo até o jardim e para sua surpresa, sua voz era linda, e combinava muito bem com a melodia. Sapateava, e cantava sozinha no jardim. Voltava para seu esconderijo para assistir. E nessa noite ela ouvira Willis falar com Sandra que não tinham mais tempo para outros ensaios, que Sandra não conseguia assimilar o sapateado e a melodia, que teria que aceitar um dublê que ficaria atrás das cortinas para esses dois atos. Sandra mostrou-se revoltada, mas aceitou a idéia. Então ficara combinado que na outra noite trariam o dublê. Nesse instante, Luiza foi tomada pôr um impulso assustador, saiu do esconderijo, correndo pelo jardim, deu a volta enorme até a entrada do teatro, ofegante parou na porta, bateu, e alguém abriu, entrou e sob o olhar de reprovação de Sandra, parou diante a Willis que a olhou espantado, não sabia de sua existência. Luiza com um vestido longo, infantil demais para sua idade, tentou falar, sendo interrompida pôr Sandra que a mandou voltar. Mas Luiza insistiu olhando nos olhos de Willis, tentava falar, Willis, em gesto atencioso, pediu que Luiza falasse, fazendo gesto para Sandra ficar quieta. Luiza então, sem nada falar, fez o sapateado, e para surpresa e fascínio de todos, soltou a voz, a equipe extasiada, pareciam hipnotizados tamanhos talentos numa pessoa tão simples, tão magrinha, tão sem beleza. Ao terminar, sob o aplauso de todos, Luiza pediu para ser a dublê de sua mãe. Foi feita uma reunião relâmpago, e o ensaio varou a noite toda, Luiza cada vez fazia melhor.
Chegou o dia do espetáculo. Luiza ficaria atrás das cortinas. Sandra representava a trama de um espião americano perdido na Rússia ela vestida de soldado russo, tentando fugir, quando chegam os guardas, e guando está acuada num paredão, sob a mira de fuzis, o soldado se revela cantando New York, New York. Os russos em risadas descobrem que o soldado é uma mulher, espera que ela termine a música e a fuzila. A platéia fica de pé aplaudindo o espetáculo. O palco escuro, uma luz sobre Sandra, ela vaidosa pelo sucesso, agradece a platéia, atrás da cortina, Luiza emocionada, sorri chorando de emoção pela mãe adorada pelo público.
Na manhã seguinte os jornais comentam o sucesso. Ninguém sabe que a voz e o sapateado eram de Luiza.
O espetáculo se repete pôr quinze dias com sala cheia. Até que um dia Luiza fica sabendo que o espetáculo fora convidado para apresenta-se na Broadway. Era tudo que o Sandra queria. O último espetáculo no Brasil, fora marcado para um sábado. Toda a imprensa fora convidada. Luiza em seu anonimato torcia para aquela noite marcante, pois no outro mês estariam em NY.
O espetáculo começa. Luiza posicionada atrás da cortina. Sua roupa comum. De saia azul, blusa preta, microfone na mão, sapato especial para sapateado, aguardava sua vez de entrar em cena. Fora chegado à hora. O teatro lotado. No ato final, quando acaba de cantar, ouve os disparos dos fuzis, a platéia aplaudindo, várias flores são jogados no palco, os aplausos ecoavam pelo teatro, nos rostos, lágrimas emocionadas, Sandra sob uma forte luz azul, reluzindo a farda de soldado americano, se levanta do chão, agradecem a platéia, sua maquiagem pálida, olhos contornados de negro, faz o gesto de agradecimento, vira a costa para a platéia e surpreendentemente, levanta num impulso a cortina mostrando a cantora e sapateadora, dizendo ao público que os aplausos eram para Luiza sua filha. Luiza pasma, tenta fugir, mas Sandra a abraça e informa que tinha muito orgulho de sua filha.
O espetáculo foi para NY, Willis acompanhou. E na última noite do espetáculo, Sandra revela que Luiza era sua filha.
REFÚGIO NOS PINHEIROS - Lira Vargas
Ainda sofria a dor da perda de minha mãe. Minhas vestes ainda de luto. A dificuldade de minha vida simples, com quatro filhos, e na precária informação dos anos 50, sabia apenas que o destino dos portugueses era o Brasil.
Amanheci naquele dia com o peito apertado, mal consegui cumprir com as tarefas domésticas, talvez quisesse atrasar as horas. Alberto com quinze e Augusto, com dezesseis anos, meus dois filhos iriam naquele dia partir para o Brasil. Terra distante, a terra prometida onde o ouro brotava a flor da terra.
Foi chegada a tarde, arrumava suas malas com os mesmos cuidados de quando pequeninos iam para a escola, arrumei um maleta com bolos, doces etc. como se aquela refeição durasse para a vida inteira, como se a viagem fosse breve, como se eles fossem voltar breve, em minha mente ainda não havia a certeza da longa partida, de dias sem fim de uma saudade imensa. Eram quatro horas quando a charrete parou em frente a minha casa e meus filhos já prontos, num silêncio triste, seus olhinhos arregalados, como prontos para uma missão patriota. Fomos caminhando até a porta, as escadinhas de barro não cabia todos nós, e de um a um descemos até o portão. O cachorrinho Dic acompanhou silencioso, batia o rabo parecia prever a saudade, parecia despedir. Os dois subiram na charrete, fiz recomendações de cuidados, de notícias, mas que notícias? Se onde morava nem correios tinha, e para onde eles iam, será que tinha ? As rodas secas da charrete foram resmungando à força de meus pensamentos "não vá". No céu as nuvens coloriam os raios de sol. A charrate foi se afastando lentamente, os dois olharam para trás, eu apenas os olhava silenciosa, A estrada curta, logo a charrate se perdeu numa curva. Nesse momento, segurando o moerão do portão, senti algo sair de meu peito e despencar de meus olhos as primeiras gotas de lágrimas, que inundaram meus olhos de uma dor nunca antes sentida. Uns pássaros voaram no céu em direção a estrada, olhei para o horizonte e montanhas embaçadas cortaram minha vista, e pensei em que horizonte estaria o Brasil? E num gesto infantil, corri até a estrada, dei conta naquele momento da perda de meus dois filhos, corri como se a chama-los poderia traze-los de volta, corri, corri, e quando cheguei na curva, avistei uma poeira ao longe, imaginei que pudesse ser da charrete, retornei até o portão, e tentei ser rigorosa, e num gesto de mãe autoritária gritei em meus pensamentos "Alberto e Augusto...voltem" mas esse pensamento de nada valeu, subi com dificuldades os três degraus até a porta da sala, num silêncio triste , passei pelo quarto deles, e vi as camas vazias, fui até a cozinha e o fogão de lenha ainda em brasa, e na pequena mesa, as canecas do café tomado as pressas e os farelos de bolo ainda pela mesa, as lágrimas faziam aquelas cenas turvas. Fui até a janela do quintal, o galo cantou tristemente, bateu as asas e foi embora, olhei os matos, as árvores, pareciam ter crescido, senti-me pequena naquele instante, passei as mãos em meus seios, e lembrei de quando os amamentei, passei as mãos em meu ventre, estava gelado, parecia que havia um buraco que vazava até minhas costas, chorava baixinho enxugando as lágrimas na velha saia preta, luto de minha mãe. Perambulei pela casa, que como as árvores, ficou enorme, era a saudade em vida, enterrar os filhos por morte em vida, tinha o mesmo sabor, um sabor amargo, uma dor sem fim. Minha filha mais nova, não entendia minha dor e perguntou na sua inocência, quando eles voltariam. Nesse momento dei conta da pergunta e da resposta: não sabia. Era assim com muitos patrícios, era assim a dor de muitas mães. Foi assim desde os primeiros navegantes. Talvez por isso os poetas e cantores eram tão melancólicos em suas obras e canções. Voltei até a porta da sala, tentei ir até o portão, mas não tive forças, era tardinha, ainda cedo para ir para a cama, mas fui. Deitei lentamente em minha cama, escondi meu rosto no travesseiro e chorei, chorei muito, tanto, mas tanto que adormeci e sonhei que Alberto e Augusto estavam no navio, o mar batia e os dois estavam abraçados de calças curtas e boné, perto da proa, as ondas imensas ameaçavam o navio, eu estava em outro navio e tentava alcança-los para salvar, nesse momento eles gritavam por mim, joguei uma corda até eles, queria traze-los para o meu navio, a chuva castigava, a tempestade era terrível, a corda foi até perto de meus filhos, eles seguraram e tentei puxa-los até o meu navio, mas uma imensa onda arrastou o navio deles, gritei, mas gritei tanto que acordei com minha filha e meu marido a olharem pra mim perguntando, e novamente cai num choro de mãe, como se uma parte de meu corpo tivesse sido arrancado e dessa vez não escondi meu choro, chorei no silencio de todos que olhavam aquela mãe sofrida.
A noite chegou, servi o jantar, meu corpo doía muito, meu marido e minha filha foram dormir, acenderam os candeeiros, perambulei pela pequena casa, passei pela cama de meus filhos viajantes e senti vontade de juntar as duas camas e deitar lá, recusei a vontade e fui até a janela, o vento quente trouxe a voz melancólica de um sanfoneiro, e as lágrimas brotaram duplicando as estrelas no céu. Fui até o quarto de meus filhos, pequei duas blusas velhinhas deles, caminhei até os pinheiros ainda sentindo o cheiro deles, dobrei o mais que pude, tapei minha boca para que ninguém ouvisse meus gritos e gritei seus nomes, gritei o mais que pude, quase sufocando meu rosto chorei até que as lágrimas desceram tão quentes que pareciam cortar minha face, retornei até a casa, meus passos agora trôpegos, como uma anciã, mas era a dor que envelheceu minha alma, a dor da saudade de meus filhos.
Fui para a cama, a noite longa, só trouxe recordações de suas vidas, dos sorrisos dos choros, das voltas do pomar com frutas nas cestas, dos banhos de chuva em tardes de verão, das brincadeiras de meninos, dos primeiros passos, dos primeiros dias de vida quando aconchegavam em meu colo, sugavam a fonte de vida tirada de meus seios, das dores que senti para a porta do mundo, num parto de dor e alegria, das noites com meu marido onde sonhei com uma casa cheia de filhos e netos para perpetuar a família, para dar a alegria a minha vida. Nessas recordações, amanheci, a dor doía ainda mais.
Os dias se arrastavam sem nada. Sem notícias, sem esperança, às vezes ficava olhando o caminho e parecia que logo, a charrate traria de volta meus meninos. Mas a esperança se perdia quando olhava para as montanhas lá longe e as lágrimas inundavam meus olhos, e quando não conseguia distinguir mais nada, pensava, assim é o Brasil, nada sei como é esse país, da distância, que nos separou.
E quando a saudade apertava meu peito, a esperança findava com as tardes, ia até os pinheiros, tirava de dentro de meus seios as blusas de meus filhos, e para que ninguém ouvisse, sentia o cheiro deles, envolvia o mais que podia a minha boca e gritava seus nomes, um grito de dor, um grito de mãe.
Hoje, estou com oitenta anos, não posso mais ir até os pinheirais minhas pernas não permitem, não posso mais gritar, minha voz está fraca, ainda guardo suas blusas rasgadas de tanto que enxugaram minhas lágrimas, mas, na cadeira de balanço, quando estou sozinha...ainda posso chorar.
O pinheiros ainda são os mesmos, ainda guardam meus gritos e minhas lágrimas.
PECADO MAIOR - Lira Vargas
Morava no interior de Juiz de Fora, a igreja da cidade era um encontro quase obrigatório dos finais de semana, nos anos de 1960, as festas religiosas para arrecadar recurso para a igreja, aconteciam com entusiasmo, minha mãe fazia bolo para as barraquinhas das beatas.
Eu tinha 15 anos, meus cabelos loiros, olhos azuis, meu jeito meigo, fazia-me destacar entre minhas amigas, tinha junto com aquela meiguice o objetivo de seguir a vida religiosa, queria ser freira.
Fazia parte do coral da igreja. Uma tarde, quando ensaiava, olhei para o altar, o coral ficava no segundo patamar da igreja, vi que o Padre Issac estava olhando-me. Envaidecida, cantei com felicidade, percebi que ele notara meu entusiasmo e vi um sorriso, nossos olhos se encontraram, e na inocência de meus quinze anos, senti pela primeira vez o sangue correr quente pôr meu corpo, algo diferente jamais sentido, jamais sentido com os namoricos com os meninos da escola. Abaixei os olhos, minha voz falhou, e logo procurei seu olhar, mas Padre Issac já não me olhava, naquele momento ajoelhado no altar, parecia um anjo.
A semana transcorrera sem novidades, apenas sentia de vez em quando a ansiedade pelo dia de ensaio. Nesse dia, procurei ir mais bonita para o ensaio, prendi meus cabelos num grampo dourado, aventurei até o batom de minha irmã. Estávamos cantando, meu olhos procuravam pela igreja o Padre Issac, em meus pensamento palavras de perdão pôr aquela atitude, e como um anjo,lá estava o Padre Issac surgindo de trás do altar, olhando-me fixamente, e outra vez o sangue correu mais quente pôr minhas veias. Acabou o ensaio, atrasei os passos, ofereci-me em arrumar a sala, as partituras espalhadas, a professora foi descendo as escadas, fazendo observações para que eu não misturasse as partituras fora de ordem, gostei, pois seria mais tempo para ficar ali. Uma mistura de medo e ansiedade tomou conta de mim, os últimos passos e falatório das pessoas foram se perdendo, e o silencio da igreja foi ficando mais pesado, senti vontade de olhar lá pra baixo, mas não tive coragem, era vergonha, e me perguntava, e seu estivesse enganada?, meus pensamentos foram interrompidos pôr passos lentos, alguém subia as escadas, não olhei, arrumava nessa hora o piano, senti um cheiro de roupa lavada com sabão, sem perfume, tive vontade de rir, quando aquela mão fria, fina e branquinha, segurou as minhas, tremi, mas lentamente deitei minha cabeça em seu peito, o Padre Issac segurou meu queixo, nossos olhos se encontraram, e num gesto quase inconsciente, nossas bocas se encontraram num longo beijo. Nesse momento, soltei-me de seus braços, desci as escadas, e no meio da igreja, quando ia transportar a porta, parei e olhei para cima, lá estava ele, olhando-me, silencioso, como a pedir perdão.
Cheguei em casa ofegante, corri para meu quarto, minha mãe veio assustada querendo saber se algo muito grave acontecera, disse que era uma cólica comum.
Durante a semana fiquei calada, as colegas do colégio perguntavam o que havia acontecido comigo, meu silencio preocupava. No dia do ensaio, fui tomada pôr uma calma muito prazerosa, uma certeza que nunca mais iria acontecer outro encontro. No ensaio, procurava aqueles olhos de menino, aquela, magia de anjo, e nada. Terminou o ensaio, sai com uma ponta de tristeza, mas ao passar pelo confessionário, parei, percebi que ele estava ali, e lentamente ajoelhei e murmurei algo incompreensível. Ele respondeu que sentiu saudade. E lentamente o Padre Issac levantou, pegou minha mão, e conduziu-me até a sala de ensaio. Subimos as escadas, nossos passos se confundiam com as batidas de meu coração, e, entre o piano e os pés do microfone, nossos gemidos se transformaram num hino ao amor. Suas mãos acariciavam meu pequeno corpo que no prazer do amor, fazia a dor do prazer, aquele local, onde as vozes do coral cantavam para casais que se dirigiam ao altar, pareciam nos conduzir ao caminho do céu. Nossos corpos rolando pelo chão, nossas roupas misturadas, nesse momento eram cúmplices, se amaciando o chão. As partituras silenciosas guardavam as notas para nos saudar naquele momento sublime do prazer e do amor.
Acordamos daquele êxtase, acordamos felizes, nossos lábios se encontravam, eu tinha que ir embora, mas os beijos insaciáveis, era uma despedida ansiosa para um novo encontro.
E outros encontros aconteciam em seus aposentos, já éramos íntimos, cada vez mais precisávamos um do outro.
Até que um dia sugeri uma fuga da cidade, nós queríamos mais e mais, ficar longe passou ser suplício, Isaac ficava indeciso eu queria uma solução. Então decidimos pensar numa decisão. As férias chegaram, minha tia do Rio de Janeiro convidara-me para estudar lá, minha mãe sugeriu que eu fosse, lá eu poderia me formar e Ter um futuro melhor, neguei assustada, pois minha mãe era rigorosa, minha irmã mais velha, não casou e nem terminou os estudos, eu era a esperança de minha família, minha irmã que tinha muita autoridade confirmava juntamente com minha mãe. Fui para o quarto e rezei, pedi a Deus que não permitisse que me forçassem a ir embora, saí escondida de minha mãe, caminhei até a igreja silenciosa, fui me aproximando dos aposentos de Isaac que ficava após uma porta atras do altar, ouvi alguém conversando com ele, um crucifixo pendido na parede, agucei meus ouvidos, Padre Isaac conversava com alguém que aquela semana seria a última, ele estava decidido ir embora para outra cidade, tinha sido convidado para outra igreja. Uma lágrima correu em meu rosto, a decepção da perda, a solidão fazendo parte de minha vida tão jovem. Saí, quando cheguei na rua, corri, chorava compassivamente, cheguei em casa abracei minha mãe e pedi aos prantos que permitisse que eu fosse para o Rio de Janeiro continuar meus estudos.Esta assustada e sorrindo, feliz com minha decisão, disse que na manhã seguinte eu iria embora. Ligou para minha tia, foi até a rodoviária, comprou uma passagem e na manhã seguinte, o orvalho ainda nas folhas, brilhavam com os primeiros raios de sol nas folhagens que contornavam a estrada. O ônibus passou pela igreja, olhei a torre, as vidraças, os jardins as escadas daquela igreja que nunca confessei meu pecado maior de ter amado o padre que rezava, que levava a Deus os pecados daquela cidadezinha tão bonita. Chorei pôr muito tempo. A estrada ia se alongando cada vez mais, pondo para trás minha felicidade.
Os anos se passaram. Um dia rompi com o medo e perguntei a minha mãe pelo Padre Isaac, ela disse que ele tinha ido embora no ano em que eu saíra da cidade e que nunca mais alguém o viu. Terminei meus estudos, casei com Orlando, tive três filhos, nossa vida sem muitas emoções, minha mãe sempre vinha ao Rio de Janeiro, evitei retornar à Juiz de fora durante vinte anos.
Um dia recebi um telefonema que minha mãe adoecera. Falei com Orlando que tinha que viajar. Cheguei na minha cidade, o coração apertado, antes de me dirigir para a casa de minha mãe, fui até a igreja, caminhei, fui até o altar, rezei pôr um instante, o coral ensaiava, olhei melancolicamente para aquelas jovens, meu olhar parou numa loirinha de olhos azuis, parecia comigo, fiquei pôr alguns instantes emocionada, uma volta ao passado, o hino, o cenário, e caminhei até a saída e atras do altar o padre olhava para o coral. Dei um sorriso e saí.
Cheguei em casa minha mãe velhinha, na cadeira de balanço, nos abraçamos, ela fraquinha falava da doença, meus pensamentos vagavam. Fui até a estante, a mesma de quando morava ali, peguei um livro, dei um sorriso e lembrei que fora meu, quando abri, tinha um bilhete dentro de um envelope, gasto pelo tempo. Perguntei a minha mãe de quem era, ela com a voz cansada disse que o Padre Issac tinha deixado pra mim, mas eu tinha viajado naquela manhã. Abri o bilhete com a mesma emoção daquela época, suas palavras pareciam tomar forma em meus pensamentos ESPERE-ME NA RODOVIÁRIA, VAMOS SER FELIZES ". Encostei o bilhete em meu peito, fui até a varanda, nesse momento o sino da igreja tocou a tarde caia e uma lágrima correu em meu rosto, de saudade e pena de nós dois.
A MÁSCARA DO TEMPO - Lira Vargas
Todos os sábados o casal de velhinhos, atravessava a rua e iam para o bar da esquina. Ele de nome Silvio, tinha um semblante sério, mal humorado, ela, bem cansada pela idade, tinha feições meigas, as rugas profundas, pareciam marcar a história de sua vida.
Sentavam no bar e o Silvio pedia cerveja, e conversavam banalidades, mas lá pelas tantas da tarde, Silvio começava a ofender a parceira de bar, que só bebia refrigerantes, talvez a maneira discreta de acompanha-lo na bebida. Silvio começava a ofende-la, culpava-a de sua infelicidade, ela o olhava, num olhar vago e meigo, Silvio dizia de sua solidão, que marcava a história de sua vida, culpava-a de não ter filhos, dizia que odiava seus olhos azuis, suas rugas e seu silencio, e quando as acusações ficavam sem fundamento, Silvio tirava a blusa de seu time e a vestia na parceira de mesa, ela passivamente permitia que a camisa cobrisse seu rosto, sem desce-la até o pescoço, e sem um só movimento, ficava naquela posição um tanto débil, a escuta das acusações do Silvio. Ele pagava a conta sob os olhares de reprovação, e num gesto meio cômico, carregava a companheira no colo, pois ela permanecia com a camisa sobre os olhos, carregava-a até a rua, parava perto da porta do sobrado, colocava-a no chão, abria a porta, voltava e a carregava até as escadas.
Foi num sábado de outono, o sol disputava com a brisa fresca que envolvia a cidade. O casal chegou no bar. Todos sabiam que a cena se repetiria como todos os sábados. Alguém, pilhareou que não permitiria que o Silvio cometesse a mesma covardia de todos os sábados. Silvio chegou, ainda alegre com a companheira silenciosa, pediu cervejas e bolinhas de queijos, sentaram na mesa e o dialogo começou sem problemas, na rua o vento soprava a poeira, ela, tentou se defender da poeira e Silvio ajudou-a a limpar o braço enrugado, os dedos compridos sobre a mesa, o corpo frágil. Nesse instante alguém ligou o rádio e a música de Xitãozinho e Xororó ecoou pelo bar "quando a gente ama qualquer coisa serve pra lembrar, um vestido velho da mulher amada tem muito valor..." ela tentou cantarolar, batendo levemente os dedos sobre a mesa. Silvio empolgado com a música, acompanha os cantores, e com a cerveja no copo, faz um brinde no ar, a companheira levante seu copo de guaraná, respondendo num gesto meigo o brinde, sabe-se lá porque.
Quando termina a música, Silvio sugere que repitam a fita, e paga para tal musica permanecer, e a essas alturas a cerveja já começara seus efeitos e Silvio, cantando, dá uma parada e olha nos olhos meigos da companheira de bar e faz as acusações de sua infelicidade, ela o olha, balbucia algo, mas Silvio não permite que ela diga algo, diz que odeia sua voz, seus olhos e seu silencio. Tira a blusa e cobre seu rosto, pede a conta e a carrega de maneira patética. As pessoas do bar fazem os mesmos comentários de recriminação, mas ninguém impede Silvio a carregar a companheira pela pequena rua, pela pequena distancia. Ao atravessar a rua, Silvio para e olha para trás, olha para o bar e grita para que desliguem a música. Chega perto da porta do pequeno sobrado e deita a companheira no chão, o sol já desistira de lutar com o vento, folhas de jornais rolavam pela rua. Silvio abre a porta e se abaixa para carregar a companheira, que não reage, Silvio a sacode e tira a camisa de seu rosto. Percebe nesse instante que a companheira de bar, não respondia aos seus chamados. Silvio dá um grito de pavor.
- Carmelia, Carmélia, eu te amo, não faça isso comigo, não me deixe, Carmélia, eu te amo.
E sacode seu corpo inerte no chão, nesse instante ambos cercados pôr pessoas. E no desespero da morte, Silvio sofre um enfarte fulminante caindo sobre o corpo de Carmélia, que nesse instante, acorda do desmaio, ajudada pelas pessoas, Carmélia, num gesto meigo, e sofrido, senta no chão, segura a metade do corpo de Silvio sobre seu colo, e num gesto maternal, permite as lágrimas rolarem em seu rosto marcado pelo tempo:
- Meu filho, eu te amo, não me deixe.
E durante o outono, quando chegava os sábados, a mesa do bar, era uma lembrança do casal.
Foi num Sábado, de inverno, o bar estava com seus fregueses de sempre, as conversas confundiam o ambiente, quando de repente todos olharam para a mesa, lá estava uma velhinha de costas, encapotada. Fez um sinal para o garçom e pediu um guaraná, quando o garçom foi atende-la, deu um sorriso assustado, era Carmélia com a camisa do time sobre o rosto, no local dos olhos estava molhado de lágrimas.
E quase todo sábado, Carmélia sentava naquela mesa do bar com a máscara do tempo. A camisa do time de seu filho solteirão.
O SENTIDO DA VIDA - Marcelo Avelar
É inquestionável, ao nos indagarmos acerca desta proposição, que se assim o fazemos é porque a própria vida nos levou a este momento de meditação, requerendo com imensa brandura uma resposta que nos permita, ou melhor, que nos inspire a darmos passos para o porvir.
Esta vida, independente de fé religiosa ou não, é um templo em que estamos a fim de vivermos naquilo que construímos; é um espaço destinado ao trabalho de nossas virtudes e conhecimentos conquistados ao longo dos mais íntimos aprendizados. A vida é tudo o que temos, se assim pensamos de modo imediato, mas é a única coisa que certamente um dia não mais teremos.
A vida é um estado de consciência presente e remota, seja deste tempo ou dos momentos idos, nos levando essencialmente à busca de elementos que nos permita construirmos tijolos para nosso interminável castelo do saber. A vida é nascimento, morte e renascimento, sobretudo de idéias e princípios que regem a existência.
Desta forma, torna-se vazio apreciarmos os entendimentos de que a vida é finita, única enquanto vida, pois se assim o fosse haveríamos de convir que em nada valeria nos esforçarmos imensamente à procura de novos conhecimentos, no labor cotidiano, visto ser encontrado em determinado tempo um ponto final aos nossos ânimos. Advém disto um outro questionamento que ressaltamos ao relevarmos que a integridade física não é característica de todos, o que não permite a estes, sequer, o labor e desfruto daquilo que seria o único sentido de uma existência da forma como muitos a subentendem.
Há sim algo por detrás do véu que se faz o sobrevir ao desgaste do corpo físico, que nos dá um sentido mais apurado destas presentes realizações e conquistas. E isto nos explica o porquê de tamanhas disparidades angustiantes que encontramos e que se faz perceber por todo aquele que se questiona acerca de tudo aquilo que desconhece.
Assim sendo, mostra-se ameno entender, por exemplo, o porquê de muitos de nós termos nascidos e sidos regidos por famílias em condições de salubridade e edificante socialmente (o que nos permite estarmos aqui hoje), enquanto que muitos ainda são os que principiam em baixo de marquises ou passarelas, enfrentando em suas vidas imensas tormentas de cunho discriminatório. E isto nos remete aos pensamentos de que a vida não é imediata e única enquanto vida, mas sim de labores variáveis que nos encaminham constantemente aos aprimoramentos e crescimentos conscienciais, o que reflete em norteamentos presentes e futuros de nossas ações.
Em face disto a vida se mostra como um grande espaço e tempo uno no desenvolvimento e trabalho dos princípios a serem adquiridos. E sendo a vida tomada por inexplicáveis ordens que desconhecemos, faz-se justo o examinar, a procura dos porquês, que leva o ser que a isto se propõe a um específico e essencial conhecimento: o de si mesmo.
Ao passo que nos vislumbramos com esta busca dentro de nós encontramos nossa essência que elucida-nos quanto a tudo que possamos nos questionar. E isto denota implicitamente que a resposta de todos os nossos questionamentos acerca daquilo que nos rege, dos princípios que nos movimenta, está dentro de nosso ser. Solução esta que muitos não enxergam por bel-prazer, outros por não serem dotados de ferramentas específicas para tal, e outros por ainda não conseguirem mesmo em posse dos elementos necessários.
A vida é simples, justa e perfeita; a vida são vidas. E o seu sentido certificamos quando enxergamos que há ordem em tudo o que observamos no seu estado natural, de tal modo que é diante nossa própria condição correspondente (a natural) que nos compreendemos em relação a tudo o que nos permeia.
Que possamos fazer esta reflexão a cada dia... olhando-nos por dentro antes de (re) construirmos ou destruirmos as palavras e os gestos que montam nossos infindáveis castelos do saber!
NOSSA IMAGEM NO ESPELHO - Martinho Carlos Rost
O que nos torna seres singulares é nossa capacidade de criar contextos explicativos do mundo. Não nos basta ser - é necessário explicar o que somos, justificar nossa existência; é preciso convencer a nós mesmos que somos o que somos.
Quando explicamos, reduzimos coisas ou fatos isolados, aparentemente sem relação entre si, a uma ordem ou lei geral. Explicar é raciocinar: estabelecer relações entre fenômenos que parecem desconexos; é pensar logicamente. Explicar é utilizar a razão para conceber um princípio que torne uno o que nos parece disperso; que aproxime o que parece afastado de nós.
Ora, somos nós que estamos dando explicações. Somos nós que descrevemos o mundo, dizendo que ele é assim ou assado, e que funciona desta ou daquela maneira. Ao afirmarmos, por exemplo: "O céu está azul", o sujeito não é, como pode parecer, "O céu". Ao cabo de uma análise mais profunda, seremos compelidos a dizer: "Eu vejo que o céu está azul"... "Eu acho"... "Eu sinto"... "Eu penso"... O sujeito real é sempre o "Eu": o "Eu" que duvida, que interroga e busca provas; o "Eu" que explica, que descreve, que deseja conhecer. E o mundo - veja só! - torna-se mero predicado: não mais do que aquilo que declaramos acerca de nós mesmos.
O mundo é como um espelho que reflete nossa imagem - que quer nos mostrar como somos, mas que na verdade nos mostra o que queremos ver. É por isso que se diz que o Universo conspira a nosso favor. Pudera! Ao pensar, nós o criamos - e é nosso pensamento que o sustenta. O mundo responde as nossas expectativas, porque reflete a consciência que temos de nós mesmos.
Há um certo narcisismo, um quê de auto-admiração, em nossa atitude diante do espelho. Nossa imagem - nossa concepção de Universo - evoca o respeito devido à séculos de Filosofia e Ciência, mas é somente uma imagem... O saber acumulado pelo pensamento humano pode erguer-se como um magnífico monumento à Verdade, mas é somente um monumento... não é a Verdade... O conhecimento registrado nos anais de nossa História pode servir como um "mapa", mas nunca será o "território", para onde (que o digam os poetas!) só as asas do Coração podem nos levar.
NA VANGUARDA DO ATRASO - Nemésio Herrero
Para que construir, já que é sempre mais fácil destruir. Somos uma peça desta engrenagem, uma peça que soma-se as outras para dar continuidade ao funcionamento da máquina. Nossa vida como uma peça, uma peça que se move para destruição. Existe aqueles que defendem as mais sensatas ideologias, mas só isso resolve? A ditadura do consumo se manifesta mais cruel e mais visível a cada dia. Nossos olhos, enxergam claramente as mazelas que o capitalismo selvagem traz as nossas vidas, no entanto, nós aproveitamos muitas vezes, destes rumos que o mundo toma. A parte cruel é sempre a mais visível, mas continuamos a não enxergar. As recentes manifestações que ocorreram pelo mundo à fora desafiam as bases do império? Os donos do poder, parafraseando Raymundo Faoro, estão sendo importunados ou isso é passageiro? O FMI e o Banco Mundial serão mesmo os responsáveis por essa mundialização da pobreza, ou só duas peças dessa engrenagem, que necessita de óleo (sangue), para o seu funcionamento diário. As últimas décadas provam o triunfo do capitalismo, do acumulo financeiro, da catástrofe que se transformou a diferença entre os incluídos e os excluídos. Nossa incapacidade de mudar o funcionamento desta máquina a cada dia, é mais visível, não nos organizamos de uma maneira definida, achamos o capitalismo um lixo, mas continuamos a consumir. Por mais que digam o contrário todos nós estamos inseridos nesta aldeia global, por bem ou mal. Os Partidos Políticos, estão totalmente desacreditados, e não é de hoje. Será que Bernard Cassen, está correto quando diz: "as ONG's mudará as políticas mundiais e econômicas", não sei, neste mundo tão caótico isso soa muito utópico. Dito isso, voltamos nossa atenção a nós brasileiros, que sem perspectivas, aceleramos o processo de destruição ou de autodestruição? Será que passado mais um turno das eleições aprendemos algo, ou continuaremos com novos carrascos que novamente usaram seu poder para que as máquinas não pare de produzir. Peças foram trocadas, mas quem garante que as novas peças funcionarão da maneira correta, ou só o combustível foi trocado? Por mais que tentamos esconder esse niilismo tolstoiano, a verdade estará sempre presente, para não sermos traídos pela indiferença que a muitos nos persegue, Oh, pobres humanos. A indiferença podemos até dizer que se torna uma frivolidade em nossa vida, a partir do momento que não conseguimos diferenciar as duas funções, peça ou vida. Um bom exemplo são as chacinas, simplesmente pararam de divulgar, será que foi por causa das eleições ou nossa indiferença já se acostumou, não importa mais saber quantas "peças" deram entrada no IML? Descrença absoluta em nós, meros e infelizes seres humanos? E nossa vanguarda de atraso não para por aí, a destruição das peças se tornaram uma parte do processo, o próximo passo é destruir o seu hábitat, nos longínquo tempos da Petrossauro diziam - "O petróleo é nosso", hoje, - "A Amazônia já foi nossa?" tem alguns que podem até concordar, dos patetas do Tio Sam que não é, ou as FARC's não existiriam! Nosso atraso é um pouco pior que enfrentar algumas meias-verdades, já que se constrói muitas mentiras que se tornam verdades, e verdades absolutas. A intenção de criticar a situação não nos remete a ser um mero crítico, mas uma testemunha do nosso tempo. Nosso papel como cidadão é resistir a negligência do Estado, com suas teias corporativas, e suas mentiras, seus ditames que simplesmente nos consome, nada mais certo, já que para a máquina não parar, as peças são e sempre serão necessárias, só que descartáveis, para o Estado-Mecânico funcionar a sua maneira. "Destruir e não Construir". O nosso lugar no fim da fila tem hora para acabar, já que o abismo a cada dia está mais perto, nossas tendências paladianas necessitam ser dissipadas, já que quanto mais idéias forem colocadas na discussão melhor será, já que precisamos de idéias não de ideologias furadas que só serve para separar e não aglutinar. Neste mês a FAO, divulgou um relatório dizendo que no mundo existe 836 milhões de seres humanos que não se alimentam adequadamente, só no Brasil existem 53 milhões, e o pior é que os 53 milhões vivem abaixo da linha de pobreza, o que torna a situação mais grave. Se o Estado nos nega as benesses, temos o nosso direito de criticá-lo, já que a estimativa do PIB neste ano é nada mais de 832 bilhões de dólares, então passaremos por necessidades em silêncio? Somos filhos do atraso brasileiro, só que existem alguns que não concordam com isso.
SÉCULO DAS MULHERES - Paulo Sérgio Mascarenhas
Fica cada vez mais claro o papel da mulher no novo século, mães dos filhos da Terra e detentora de um profundo poder de comunhão com os processos essenciais da vida. É ocupando posições de liderança, lutando por uma sociedade mais justa, humana e igualitária, ao lado do homem.
Lentas e profundas têm sido as ações da mulher ao longo da História. De maioria discriminada, ela vem conquistando espaço e legitimidade nos desafios que se impõem nesta virada de milênio.
Educação tem cara de mulher e esta é a arma que deverá ser utilizada para a transformação de um século de guerras para um século de paz. A mulher lutou e pagou o maior preço na reconstrução das sociedades e nações e quer ter participação decisiva nos rumos dessa virada de milênio.
Hoje são a maioria da população. São também a maioria nos bancos escolares, em todas as etapas da educação formal e maioria em, praticamente, todas as carreiras do ensino superior. Além disso, tem mais anos de escolaridade do que os homens em todos os níveis da escala educacional. Antigamente a educação era o único reduto profissional das mulheres.
Hoje, como sabemos, as mulheres estão em todas as carreiras e categorias profissionais. Na educação, porém, se destacaram e valorizaram de tal modo esse bem, que os homens voltaram a interessar-se pela profissão de educador.
Hoje temos no Brasil, até um razoável contingente de mulheres reitoras em nossas universidades, inclusive reitoras negras. As mulheres Tem sido, capazes de superar adversidades e desafios.
Há, no entanto, um desafio ainda não superado: o preconceito e a discriminação no mundo do trabalho, que faz com que as mulheres recebam um salário, em média, 45% menor do que os homens, no exercício das mesmas funções e realizando o mesmo trabalho. Essa desigualdade é agravada pelo fato de as mulheres assumirem mais e mais a manutenção da família, configurando-se então uma profunda injustiça contra a metade da humanidade.
A FRAGILIDADE POLÍTICA - Rodrigo Lóssio
A reunião estava conturbada, os presentes estavam exaltados, grupos se formavam para discutir idéias e propor ações. Era um encontro de lideranças de um grande partido político nacional, a UDB (União Democrata Brasileira). A residência, na qual se dava a cúpula, era do líder do partido, estava abarrotada de políticos, figuras da alta sociedade, presidentes de grandes empresas e simpatizantes do partido. O motivo central da reunião era a escolha do candidato à presidência da república.
A fim de iniciar realmente as discussões, o anfitrião, líder do partido, subiu num pequeno palanque e tentou acalmar o ânimo dos mais exaltados. Pediu que todos se dirigissem ao seu auditório particular para então, melhor discutirem e decidirem o candidato do partido.
Com alguns cochichos no ar, todos foram se dirigindo à enorme sala na casa do líder partidário. De pouco em pouco, todos foram se sentando e o silêncio ia pairando. Quando todos estavam acomodados, entrou à sala, o senador Luís Henrique Assis, presidente do partido e o deputado Leocádio Guimarães, líder do partido e anfitrião do encontro. Se dirigiram ao palanque montado a fim de prosseguir a reunião. O primeiro a dirigir a palavra foi o deputado Leocádio.
Caros senhores presentes, agradeço a presença de todos em minha casa a fim de discutirmos e elegermos o candidato à presidência de nosso pais. É com muito orgulho que inicio aqui, a nossa cúpula de eleição. Estejam todos a vontade!
Após alguns aplausos se dirigiu ao palanque o senador presidente do partido Luís Henrique.
Primeiramente eu queria agradecer ao nosso companheiro Leocádio, por ter cedido sua residência para a nossa reunião. Por segundo, queria enfatizar a importância deste encontro. Daqui a algumas horas escolheremos o candidato representante do nosso partido, para ocupar o posto mais importante da política nacional. Peço que todos votem, neste momento, no computador ao lado, o voto é secreto, bastando digitar o código de seu escolhido.
A votação durou em torno de meia hora. Todos estavam ansiosos quanto ao resultado da mesma, visto que muitos dos que votaram, eram pré-candidatos. No momento que se encerrou a votação, o computador foi levado a uma sala, e lá foi feita a apuração dos votos. Depois de alguns minutos já se tinha o resultado.
Companheiros de partido, já temos o nosso candidato disse, ofegante, Luís Henrique. O candidato da UDB para a presidência da república é... o atual senador gaúcho, José Cardoso Magalhães.
O senador gaúcho foi recebido com muitos aplausos e cumprimentos. Fez um discurso breve e eloqüente de agradecimento e disse que honraria a confiança depositada nele. Começaria naquele momento a campanha rumo à presidência do país.
José Cardoso Magalhães, mais conhecido como JCM, começou sua vida política como vereador numa pequena cidade gaúcha. Com o aumento de sua popularidade como vereador, decidiu se candidatar prefeito da pequena cidade e ganhou, com uma vitória esmagadora: 85% da votação foram dele. Sua popularidade ia não só tomando conta da cidade, mas também das cidades vizinhas, sendo visto como um grande político no Rio Grande do Sul.
Mas JCM não estava contente, ele queria mais, era ambicioso. Por indicação de companheiros políticos., decidiu contratar um assessor de marketing político, que o ajudaria a cada vez ficar mais conhecido. Uma pessoa em que ele depositaria total confiança, que lhe daria condições de crescer cada vez mais na política. Neste momento, Magalhães decidiu se mudar para Porto Alegre. Se filiou à UDB, um partido em ascensão após a queda da ditadura militar.
Seu assessor, Francisco Putre, o acompanhou em sua ida à Porto Alegre. Chegou até certo momento a morar junto com a família de JCM. São Chico, como foi apelidado por José, ensinava a seu aluno como se comportar frente a câmeras, a fotografias, em reuniões. Era um verdadeiro anjo da guarda de JCM.
Logo, JCM foi indicado a ser deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, com a ajuda do marketing político de Chico, venceu as eleições como o deputado gaúcho mais votado. Sua popularidade nunca esteve tão alta. Toda hora estava na mídia, divulgando suas obras, suas ações, suas doações sociais.
Descontente com a Câmara Estadual, queria o Congresso Nacional. Fez uma forte campanha não só no Rio Grande do Sul, mas também nos estados vizinhos como Santa Catarina e Paraná. Fez também campanha em São Paulo e no Rio de Janeiro. Conseguiu muitos votos fora do Rio Grande do Sul e se elegeu. O então Senador JCM despontou como uma das maiores lideranças políticas do país. Se aliou ao governo, a ponto de ganhar a confiança do então presidente, Antônio Costa Gomes, mesmo sendo este de um partido com diferente ideologia.
Com aliados políticos fortíssimos, um grande carisma da população nacional, popularidade. JCM, quis mais, ele não queria mais o Congresso Nacional, ele tinha um sonho, comandar o país, ocupar o lugar máximo dentro da hierarquia política. Ele almejava a Presidência Nacional.
Antes de todas suas ações, consultava sempre São Chico. Primeiramente, Francisco achou que JCM deveria esperar um pouco mais, para ganhar mais popularidade, ganhar confiança de eleitores no Norte e Nordeste. Então, por indicação de seu assessor, acompanhou grandes obras no Nordeste e Norte, se aliou a alguns partidários de lá, a um grande coronel senador baiano, ao governador cearense, maranhense e amazonense. Acompanhava todas as ações do governo no Norte e Nordeste. Sua popularidade em todos os cantos do país estava sendo montada. Seus passos eram extremamente cautelosos, evitava escândalos.
Começaram a aparecer seus adversários políticos, visto à sua ascensão política. Mas ele, como bom político (e com um bom assessor), soube lidar com a situação. Sendo imparcial e defensor dos interesses da população (seus futuros votos).
Chegou o momento, era a hora de JCM se candidatar à presidência. A UDB, agora, um grande partido, dá a oportunidade para o gaúcho realizar sua maior ambição, seu maior ideal: a presidência.
Dias após a reunião que apontou José Cardoso como candidato a presidência pela UDB, os líderes do partido, juntamente com JCM, se reuniram para propor metas e estabelecer as bases aliadas. Estavam todos muito confiantes quanto a eleição de JCM.
Mas, a véspera do lançamento oficial de JCM como candidato à presidente, uma fatalidade ocorreu. Seu fiel assessor, companheiro, nestes anos de política, foi cruelmente assassinado. O crime ocorreu na noite anterior, na residência do próprio assessor, a polícia suspeita de tentativa de seqüestro. Um laudo seria divulgado nas horas seguintes.
JCM estava desesperado, amargurado, visivelmente abatido. Viu que perdeu um grande amigo e um grande companheiro, a pessoa que fez ser o que ele é na política. São Chico sabia de todos os detalhes, de todas as artimanhas da política. Era considerado um dos maiores "marketeiros" políticos da atualidade. Não era só o braço direito de JCM, era os pés, as mãos, o corpo, o cérebro de José.
O lançamento oficial de JCM foi adiado. Propuseram para Magalhães, a contratação de um novo assessor político para ele. Ele recusou, estava ainda abatido. O partido decidiu realizar outra reunião, com os líderes e com JCM. Nesta reunião o candidato a presidente já estava mais conformado, e sua ambição já tinha retornado, queria a presidência como nunca.
JCM estava mudado, desorientado, aquele político determinado, populista, estava apagado. Faltando três meses para as eleições nacionais, a popularidade do gaúcho estava caindo, dos 55% iniciais, já estava em 40%. Ninguém sabia o motivo da decrescente popularidade. Os programas políticos de JCM eram fracos. Os discursos inflamados eram raros. Realmente, o grande político gaúcho estava irreconhecível.
Foi então que JCM caiu na real, percebeu que sem os conselhos de São Chico, ele não era nada, sem a fiel ajuda, sem os discursos eloqüentes escritos por Chico, ele era apenas um político dentre outros. JCM não tinha mais seu mentor, seu companheiro. Se tornou frágil.
As eleições chegaram com as pesquisas apontando um empate técnico de JCM e de seu maior rival. A confiança de JCM de ser o próximo presidente já não era aquela do começo de campanha.
E as urnas apontaram Ciro Enéas, o candidato rival de JCM, como o novo presidente da república. JCM era uma farsa, estava acabado. O político ideal, perfeito, não existia, JCM era pré-fabricado.
No dia seguinte, José Cardoso Magalhães foi encontrado morto, em sua cama, com um tiro na cabeça. Suicidou-se. Deixou um bilhete, e nele escrito:
"Não sou o que vocês pensavam que eu era. Também não sou o que eu pensava ser. Só sei de uma certeza, quero ser político no céu, ao lado de São Chico, o meu único santo e protetor..."
MONÓLOGO DO QUERER - Rodrigo Lóssio
Queria eu ter uma máquina do tempo. Queria eu estar em todos os principais marcos da história. Queria eu compartilhar gritos de vitória e até mágoas da derrota. Queria eu lutar por um mundo mais justo. Queria eu estar em todos lugares e momentos ao mesmo tempo.
Queria eu estar lutando pelos índios quando homens de pele branca invadiram o Brasil. Queria eu ser revolucionário, lutar pela República como Tiradentes assim o fez. Queria eu ver Getúlio agonizando após ter se suicidado. Queria eu avisar Santos Dumont sobre o uso dos aviões em guerras. Queria eu pintar minha cara e lutar pelas diretas. Queria eu estar junto ao carro de Senna, tendo o orgulho de segurar a bandeira brasileira na vitória.
Queria eu avisar Einstein sobre os fins da bomba atômica. Queria eu poder evitar o Holocausto, depondo Hitler do poder. Queria eu ver as caras dos americanos após o Vietnã. Queria eu ajudar Mandela a combater o apartheid na África do Sul. Queria eu destruir o muro de Berlim com marretas e picaretas.
Queria eu ser o primeiro astronauta a ver a Terra da Lua. Queria eu estar no poder da ONU quando decidiram retirar palestinos e assentar judeus na Terra Santa, evitando o conflito. Queria eu impedir Talibãs destruírem estátuas milenares no Afeganistão. Queria eu apaziguar guerrilhas na Colômbia.
Queria eu, queria eu. Como queria. Querer é fácil, poder é difícil. Mas faz parte da vida, faz parte da minha história. Queria eu ter uma máquina do tempo para desvendar novas histórias.
SOBRE A SEXUALIDADE MASCULINA - Rubem Alves
Os poderes divinos que decidem os destinos dos homens tem que ser femininos. Se fossem masculinos eles não permitiriam que se fizesse com os homens as maldades que lhes foram feitas. Basta examinar a assimetria existente entre homens e mulheres para se perceber a situação humilhante dos homens. Os homens, enganados pela fantasia de que possuem algo que as mulheres não possuem, não se dão conta da sua fragilidade. E, vão ao ponto de, numa incompreensível cegueira para os fatos anatômicos e fisiológicos, dizer que eles "comem"as mulheres. Puro engano. Comer é um ato pelo qual uma coisa é colocada dentro da boca, a boca sendo o orifício vazio que extrai do referido objeto, por meio de movimentos ritmicos, a sua substância e sucos. Ora, a anatomia é clara: é a mulher que é o orifício vazio que recebe o objeto masculino, que ao final aparece murcho e esgotado. Mulher é a boca; o homem é a fruta. Ao final só resta o bagaço da laranja. A mulher ,ao contrário come e engorda. A psicanálise usa dizer que as mulheres sofrem de complexo de castração, porque algo lhes falta. Equívoco total. Com o que elas não tem, elas podem ter quantos quiserem do que o homem tem. A segunda assimetria é outro castigo das deusas. A par da assimetria anátomo-funcional, a Deusa impôs ao homem um castigo de honestidade. Não lhe é possível esconder ou fingir. Ele não pode, por meio de uma decisão racional , dar ordens ao seu orgão. A mulher é diferente, ela não corre o risco da humilhação. Por meio de uma decisão racional, ela pode ter uma relação com a pessoa, pode fingir, e o outro nem percebe. Aí, os homens começam a ter medo do desejo da mulher. Melhor uma mulher sem desejo, pois se ela não tiver desejo, não passarei pela humilhação de não poder satisfaze-la. O homem não suporta imaginar que o desejo de sua amada, que ele não consegue satisfazer, possa ser satisfeito por outro. Daí o terror da infidelidade da mulher. Pois ao ser infiel, ela está proclamando aos quatro ventos a incapacidade, de determinado homem, de satisfazer seu desejo.O que vai ser insuportável para o homem são os olhares dos outros homens. Para os homens, a masculinidade deve ser reconhecida não só pela mulher, mas também pelos outros homens. Mas se a mulher não tiver desejo, o homem estará protegido deste horrível perigo metafísico. A aparencia bruta, os músculos ,as histórias de proezas sexuais, todos esses são artifícios de um ser amedrontado diante do mistério da mulher, pois será ela que irá revelar se ele é comida suficiente para matar a sua fome. Agora me digam: as deusas tinham necessidade de fazer tal maldade com os homens?